quarta-feira, 23 de novembro de 2011

09. Karate-dô e Religião.

Não há outro assunto onde a maioria esmagadora dos instrutores de Karate sejam mais "férteis" do que a associação infeliz do Karate-dô a uma vertente religiosa! 
Esta "fertilidade" deve-se principalmente à quantidade imensurável de "adubo" que vai dentro da cabeça daqueles instrutores que se recusam a estudar a arte que praticam e a cultura japonesa à qual estas mesmas artes de combate estão associadas.

Consequentemente, nesta primeira abordagem ao assunto em questão devemos entender o contexto onde ambos os assuntos (Karate-dô e religião) estão envolvidos e onde "supostamente" estariam ligados de alguma forma.

Para começar, devemos entender que as artes marciais orientais antigas tinham dois propósitos únicos: 
1 - Matar outro ser humano ou morrer em combate corpo a corpo ou 
2 - Condicionamento físico religioso para longos períodos de meditação.

Na Ásia e - no nosso caso em particular - no Japão feudal isso não era exceção. 
A religião e o Militarismo estavam na realidade intimamente ligados. Era um período de guerras e de agitação social. Naquela época - como nos dias de hoje - o Japão tinha (e ainda tem) duas religiões oficiais: uma nativa (Xintoísmo) e outra importada da China (Budismo) - ambas convivendo lado a lado sem problemas maiores.
A classe dominante do período feudal precisava de valores morais que justificassem o modo de vida da época, o Bushidô 武士道, e, neste contexto, o Bukkyô 仏教 (Budismo) e o Shintô  神道 (Xintoísmo) serviam plenamente! 
Através do Budismo, os guerreiros compreendiam que a atitude diante da vida e da morte nada mais era do que a mesma coisa e através do Xinstoísmo sabiam o dever para com o seu senhor feudal e suas obrigações sociais. Colocados nestes termos, religião e arte marcial não podiam mesmo estar separadas.
Sob estes alicerces, as artes -Jutsu 術 (militares) e as artes -Hô 法 (religiosas) desenvolveram-se e proliferaram. Por exemplo: Kenjutsu 剣術 ("Artes da espada") e kenpô 拳法 ("doutrina dos punhos") respectivamente.
Passados alguns séculos de guerras internas, o Japão acaba por ser unificado sob a regência Tokugawa 徳川 e após duzentos anos de xogunato chega ao fim. 
*** Aqui são necessários dois pequenos comentários dignos de reflexão: 
1. "O que fazem os guerreiros em tempo de paz? E o que fazem estes guerreiros após 200 anos de paz?" 
É importante saber que - sem precisar de muito trabalho cerebral - os guerreiros já estavam "agitados" e frequentemente perturbavam a ordem social. Também não é necessário dizer que o Bushidô 武士道 já estava em declínio... Isso pode ser verificado na obra HAGAKURE KIKIGAKI 葉隠聞書 de Yamamoto Tsunetomo 山本常朝 (11 Jun 1659 a 30 Nov 1719) onde o autor lamenta o aparecimento do "Bushidô fraco".
2. Estamos a entrar na "Restauração Meiji" (明治維新)... Fim das artes -jutsu , fim dos samurai , etc.
********** ATENÇÃO AGORA! **********
É aqui que os ocidentais metem o pé na poça em relação ao Karate e a Religião!
Espalham-se à grande porque:
1 - recusam-se a aceitar o fim dos samurai e das artes -jutsu.
2 - porque não vêem o óbvio: Oh! Meus amigos! Os Samurai podem ter desaparecido, o militarismo japonês pode ter desaparecido, os -Jutsu podem ter desaparecido, mas os japoneses continuam a ser budistas e/ou xintoístas! 
Nada mais natural, então, para eles (japoneses) a religião fazer parte das Artes nacionais. Mas nós NÃO somos japoneses e nem o budismo, nem o xintoísmo são religiões ocidentiais!! 
As artes marciais japonesas praticadas, mesmo no Japão, NÃO apresentam aspectos religiosos e nenhuma instrução é dada a este respeito (religião) - em qualquer parte do planeta! Visa-se agora principalmente a vertente desportiva.
Por outro lado, se alguns instrutores prestassem um pouquinho de atenção à questão budista, veriam que em se tratando de "salvação espiritual" o Budismo está dividido em duas vertentes: mahāyāna - "Grande veículo" e Hīnayāna - "Pequeno veículo". Basicamente pode-se entender cada uma através da seguinte analogia: Mahāyāna é um ônibus, cheio de imagens do Buda - apinhado de gente ladeira abaixo e Hīnayāna é uma bicicleta porcaria ladeira acima, onde o "crente" tem que pedalar o percurso todo. Ou seja, uma via é para o povão e a outra - desprovida de simbolismos, é para os ascetas. Se uma apresenta imagens de Buda e a outra proibe a apresentação de imagens do Buda, então, o cerimonial no início dos treinos é tradicionamente Xintoísta e é executado mundialmente da mesma forma, independente do país ou religião oficial. 

Por outro lado, para aqueles que "amam" o Zen, vamos deixar claras algumas coisas:
- Mokusô 黙想 (Pensamento silencioso) não é Zazen 座禅 (Meditação sentada budista).
- O ideograma Kara 空 em Karate 空手 foi alterado para dar uma dose filosófica à arte para se ajustar à introdução do Karate no Japão... e posteriormente foi adicionado o sufixo Dô 道 para maior ênfase ao "Caminho".
- Não há tretas transcendentes em Karate. Ou é ou não é, ou se sabe ou não se sabe.

Poderia perder um tempo enorme em especulações, mas a realidade é simples: se não sabe não deveria ensinar (ou fazer)... Infelizmente esta não é a realidade do ensino marcial dos dias de hoje.


Tenho a certeza que muitas pessoas devem estar a pensar agora: "Mas isso tira o misticismo do Karate-dô!" Sejamos sinceros: com tanto que se tem para estudar, com tanto que se tem para praticar... o misticismo ainda faz algum sentido?


Só tem tempo a perder com "religião", misticismos e transcendencias em Karate-dô quem negligencia o treino e o estudo da tradição e história da verdadeira arte que pratica.

押忍
Osu

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