quarta-feira, 13 de maio de 2015

227. A cor "BRANCA".

Tem havido nas últimas décadas, em se tratando de Artes Marciais Japonesas, uma tendência a achar que a cor "branca" representa "a pureza", "a volta à inocência", "o retorno ao princípio"... e, por causa desta "tendência" disparatada, inúmeros são os instrutores que deixam as suas faixas pretas ficarem em farrapos ou em completo mau estado de conservação apenas para comprovar o "tempo de prática".
Vejamos, então, alguns fatos que deveriam ser levados em consideração ANTES de se criarem "tendências" que, na maioria dos casos, são irracionais.
Em primeiro lugar, no caso das faixas pretas, a maioria dos instrutores ocidentais simplesmente esquece da tradução do nome da primeira faixa preta, ou seja, SHODAN! Assim, vamos relembrar a tradução e a consequente fundamentação do uso errado de faixas em mau estado de conservação.
A palavra SHODAN é escrita, em japonês, utilizando-se dois ideogramas: SHODAN 初段. Sendo que 初 SHO - "Início", "inicial", "começo" (...) e 段 DAN - "Nível".
Portanto, COMEÇA-SE o treino de uma determinada arte na "primeira" faixa preta. Sendo o preto inicial "a origem", "o começo" da vida do praticante. Agora, a lógica por trás da tradução: se a primeira faixa preta traduz-se por "nível inicial", qual é a lógica em deixar aparecer o seu interior branco?
Basicamente um "modismo" que foi usado por um ou outro mestre Japonês e que foi "copiado" por um número incontável de ocidentais porque "parece" ser mais "cool".
Assim, a tradução do termo SHODAN por si só indica que o uso da cor "Branca" nada tem a ver com o sentido de "retorno às origens" em se tratando de faixas pretas, deixar que a faixa fique em mau estado é um mito irracional. Estupidez.
Por outro lado, antigamente os Dōgi (Jūdō-gi, Karatedō-gi, etc.) eram feitos em pequenas instalações ou em casa, basicamente manufaturados de algodão não tratado (até o cheiro era característico ^_^ ). Para quem é antigo como eu, sabemos que os Dōgi daquela época COMEÇAVAM com uma cor "amarelada" e com o passar dos anos de prática e inúmeras lavagens estes mesmos Dōgi ficavam imaculadamente "BRANCOS"! Aqui sim, justifica-se a cor "Branca" como trazendo em si mesma o seu significado de "tempo de prática" (conceito que os ocidentais deturparam, transformando esta ideia em uma faixa porcamente mal tratada). Mas o assunto acaba aqui?
Claro que não! A capacidade humana de se superar é impressionante, principalmente quando faz porcaria!
Além das faixas esfarrapadas e em mau estado de conservação, começaram a surgir Dōgi "de marca" - bastante caros, diga-se de passagem - e excessivamente "engomados"... com o objetivo único de "fazerem barulho" para indicar que alguém está a usar KIME, sem que isso seja necessariamente verdade (vou traduzir, neste contexto, a palavra KIME por "energia de execução das técnicas")!
Voltemos aos Dōgi originais, aqueles feitos em casa... os Dōgi "amarelados" só faziam algum "barulho" se "REALMENTE" existisse KIME (energia) e, portanto, eram um indicador fidedigno do esforço de quem os envergava!
Hoje em dia, basta que alguém dê um passo e já somos capazes de ouvir o Dōgi a fazer barulho! Ah! O karatedō... quanto se paga por um KIME?! 
Para mim, que venho dos Dōgi antigos feitos artesanalmente, isso é simplesmente patético, porque não representam, nem de longe, o real empenho daqueles que deveriam ser expoentes nas artes que praticam.
Fala-se muito em tradição e valores do Bushidō, mas se formos analisar a situação atual, iremos encontrar vários exemplos de "tradições e valores" adaptados às conveniências do "peixinho a ser vendido"!
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"Nada é tão bom que não possa melhorar e nada é tão mau que não possa piorar!"
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domingo, 26 de abril de 2015

226. O CALHAU E O KARATEKA.


Há um assunto que eu venho falando há anos, mas a maioria dos instrutores tem se feito de surdos, mudos e cegos... E o que acontece, então?

As consequências dessas posturas de negação do óbvio são visíveis no nosso dia a dia - em maior ou menor grau.

Eu poderia dizer que não sei qual é o motivo para haver uma predisposição - perigosíssima -  da maioria dos insrutores ocidentais em achar que "se é do Japão, é melhor!" ou "todo mestre Japonês tem bom caráter!". Mas isso seria mentira! Porque eu sei bem o motivo que valida "a galinha da vizinha ser sempre melhor do que a minha"!

É uma predisposição perigosíssima porque parte de um pressuposto completamente errado, ou seja, de que os mestres japoneses NÃO SÃO HUMANOS!

Muitos instrutores partem do princípio de que os mestres japoneses estão "acima dos demais mortais"... chegando mesmo a "venerar" alguns!

O que os instrutores ocidentais esquecem é a informação mais elementar e básica a respeito dos seres humanos: todos nós, pertencentes à raça humana, ERRAMOS, FALHAMOS, COMETEMOS ERROS, METEMOS O PÉ NA POÇA, DESNORTEAMOS, TEMOS MOMENTOS MAUS (MUITO MAUS, PÉSSIMOS), PRECIPITAMO-NOS, DIVAGAMOS, etc..

Esta característica de serem "cegos à realidade que os rodeiam" é bastante fácil de encontrar quando leio livros sobre artes marciais e raramente, muito raramente vejo uma análise correta das Artes Marciais onde é levado em consideração o "fator humano" dos mestres antigos. O problema é que, sem esta análise de comportamento humano é IMPOSSÍVEL determinar aevolução natural do Karatedō até aos dias de hoje, porque a história do Karatedō está marcada por encontros e relacionamentos humanos!

Como em qualquer parte do planeta, há pessoas boas, há pessoas medíocres e há pessoas más. Também existem bons instrutores, instrutores medíocres e maus instrutores! ISSO É IMFORMAÇÃO ELEMENTAR!

No ocidente isso se torna ainda mais complicado porque "a outra galinha é a melhor!"

Por exemplo, no dia 23 de Setembro de 2013 eu escrevi neste Blog o seguinte:

"Isto só confirma a 100% o que eu venho dizendo já há alguns anos: não é por ter "cara" de japonês, por ser "descendente" de japonês ou mesmo por "ser" japonês que uma pessoa sabe e vive a tradição e cultura japonesa antigas!"

E acrescentei:

"Tenham certeza também que há muito japonês "armado" em "mestre" apenas por causa da aparência! "

Adiantou alguma coisa o aviso? Claro que não!

Para piorar a situação, muitas das pessoas que caem no "velho truque" das aparências são pessoas com um grau de escolaridade elevada, com trabalhos publicados a respeito das artes marciais japonesas... mas que não aprenderam coisa alguma com os trabalhos que fizeram!

E por que eu afirmo que elas não aprenderam nada com os trabalhos que fizeram? 

Porque continuam a deixar o aspecto "humano" dos mestres das Artes Marciais Japonesas de fora da equação, fora dos seus trabalhos e, por isso, não têm a visão completa do assunto que estão a divulgar.

Infelizmente, mesmo com o aparecimento de mais e mais pessoas interessadas em pesquisas e estudos a nível das Artes Marciais Japonesas, os ocidentais parecem ainda estar "estupidificados", "entorpecidos" diante da cultura nipônica e, por causa disso, frequentemente esquecem de usar o cérebro a fim de analisarem as situações com clareza e objetividade necessárias na convivência e relacionamento entre os seres "humanos".

É desta falta de análise elementar que surgem os "misticismos", as más interpretações, a religiosidade inadequada... enfim, o KARATE (sem sufixo) para justificar uma pura estupidez  ou simples malandragem mental!

Eis que surge a questão: o que é mais válido? Um Karateka cego pela própria ignorância (geralmente - por mais incrível que isso possa parecer - em prejuízo próprio) ou um calhau que, pelo menos, fica no seu lugar, sem sobrevalorizar seja quem for? (Se bem que, em regra geral continua-se a achar que os japoneses são os melhores.)

Volto a dizer: há o bom, o medíocre e o mau em TODO O PLANETA!

Custa-me ter de repetir as mesmas coisas dia após dia, mas, quem sabe, um dia, o pessoal vai "acordar" e ter maturidade suficiente para pararem com venerações estúpidas, deixarem de ver apenas as conveniências sociais de estarem ligados a este ou aquele mestre - novamente - "japonês" (saltando de galho em galho à procura do "melhor japonês") e buscarem o que realmente interessa: "o saber"... e "saber" cada vez mais!

Deixemo-nos de hipocrisias! Não devemos "proteger o Caminho da Verdade" apenas quando nos convém! Tenham tomates para assumir esta postura nos seus dia a dia ou, então, parem de citar algo apenas porque fica bonito como palavras de um Dōjōkun.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

225. JUSTIÇA E FAZER O QUE É JUSTO.

Há um grande número de praticantes de artes marciais japonesas que se consideram verdadeiros “samurais”, seguidores do Bushidô e dos elevados padrões dos guerreiros japoneses feudais.

É fácil encontrar as sete virtudes do Bushidô (1) Retidão ou Justiça - SEIGI 正義, 2) Coragem - YUKI 勇気, 3) Benevolência - JIN'AI 仁愛, 4) Polidez / educação - REIGI 礼儀, 5) Sinceridade ou devoção - SHISEI 至誠, 6) Honra - MEIYO 名誉, 7) Lealdade - CHUSETSU 忠節) sendo citadas como se as pessoas que as citam vivessem num universo ou século paralelo, no qual andariam com espadas à cintura e a defender a justiça (apenas de forma hipotética ou lúdica, naturalmente).

Ah! Isso seria tão bom! Nutrir um mundo justo e honrado!

A este respeito, referiu-se o Mestre de Karatedô, Funakoshi Gichin, nos seus “Vinte Preceitos”:

一、空手は義の輔け。Hitotsu, Karate wa gi no tasuke.
"Importante, o Karate é um assistente da Justiça."

Será mesmo? (Se é que alguém chegou a “perder tempo” em pensar nisso…)

Uma coisa é o sonho a ilusão dos “samurais contemporâneos”, daqueles que criam “«novas» tradições para atenderem às suas conveniências" muito particulares, quer pela necessidade de bajulação, quer por pura vaidade, quer pela necessidade imatura de "poder" (em regra geral, são criadas conveniências que impliquem sempre "o menor esforço possível"), da mesma forma, aquilo que o Mestre Funakoshi deixou escrito – se não colocadas em prática; outra coisa é a realidade atual, pura e dura!

Nos dias de hoje, não andamos com espadas à cintura com ar desafiador e olhar aguçado, nem usamos Hakama ou kimonos pelas ruas. Vivemos num mundo onde os campos de batalha são muito mais sutis e, em certa medida, muito mais perigosos, porque a “retidão” apregoada por muitos não é tão “reta” como aparenta ser.

Por outro lado, todos os dias, nós temos a chance de sermos justos, todos os dias nós temos a chance de viver como viveram realmente os antigos Samurai. E isso só depende do “quão justa é a nossa justiça”.

Agora cabe a cada um pensar no seguinte: o que tenho feito eu a fim de que o mundo seja mais justo? Luto realmente pela retidão (de comportamento e opiniões)? Luto por valores elevados, como os fundamentos do Bushidô? Ou acomodo-me (acovardo-me) e encolho-me num canto? Esperando que o tempo passe e que tudo se resolva sem a minha intervenção...

Há uma definição de insanidade que diz o seguinte: "Insanidade é fazer tudo da mesma maneira, dia após dia, e esperar resultados diferentes." 

Não estaremos a ser simplesmente insanos dia após dia?

domingo, 29 de março de 2015

224. 武 BU!

Hoje vou cometar mais um ideograma japonês que, para mim, é mais um daqueles exemplos de conceitos mal interpretados no ocidente. Refiro-me ao ideograma 武 "BU", usado em palavras como BUJUTSU ou BUDŌ.

Vamos, antes de mais nada, "entender " a ideia por trás deste ideograma e, desta forma poder situar as interpretações que agora conhecemos.

No nosso dia a dia, ortograficamente falando, o ideograma BU é visto como um único caracter, é visto como "um todo" a ser escrito... Simples assim! Mas, na verdade o ideograma BU é o resultado da junção, da composição de "dois" ideogramas específicos, a partir dos quais podemos entender a ideia que este transmite. 

O ideograma BU foi criado a pardir dos seguintes ideogramas: 

KA 戈 - "alabardas", "lanças" e 

SHI 止 - "parar". 

Usando-se, então, estes significados, é criado o ideograma que já conhecemos, isto é, graficamente, fica-se com a "ideia" de que BU seria, literalmente, "parar as alabardas (lanças) (inimigas)".

BU 武 - ideia original: "parar as lanças inimigas".

Mas, na prática, o que significa "Parar as lanças inimigas"?

A nível dos clássicos militares antigos (chineses e japoneses), existem duas opções disponíveis para "parar as lanças inimigas": a via diplomática (pacífica) e a via belicista (guerra). Isto quer dizer, sem qualquer dúvida, que há formas distintas de resolução de conflitos. Há, portanto, opções claras e opostas para "parar as ações violentas dos inimigos".

De qualquer forma, esta visão de "dualidade de opções" foi sendo transformada com o passar dos tempos, de tradução em tradução, chegando ao termo "marcial", utilizado nos dias de hoje. De fato, eu não sei quem foi o primeiro autor ou primeiro indivíduo a sugerir a palavra "marcial" para o ideograma BU, mas esta tradução veio a causar muito mais inconvenientes do que oferecer uma tradução que se aproximasse a ideia original do grafismo chinês ou japonês.

E por que eu digo isso? Porque "Marcial" refere-se ao Deus Marte, o "DEUS ROMANO DA GUERRA". Como podem ver, "DEUS DA GUERRA" refere-se e indica uma opção única, isto é, a guerra em si mesma, o que não está de acordo com os ideogramas orientais originais.

Na verdade, tanto na China como no Japão, "BU" é traduzido por "militarismo" e não "marcial" e, no militarismo, as vias diplomatícas e da guerra estão presentes!

É justamente aqui que reside a diferença de "mentalidade" entre o que é praticar o BUDŌ como "Via marcial" ou praticar o BUDŌ como "Via militar".

Diferente do que é atualmente apregoado na esmagadora maioria das escolas de "artes marciais", o treino MILITAR difere consideravelmente do treino MARCIAL.

Que fique bem claro: a tradução de BUDŌ 武道 é "Vias Militares" e NÃO "vias marciais"... com tudo que isso possa implicar.

Este assunto poderia gerar um livro, explicando as razões porque a interpretação correta dos ideogramas e cultura japoneses seriam responsáveis pela mudança radical na forma de treino do BUDŌ contemporâneo. 

Contudo, não é meu objetivo escrever qualquer livro explicando o que já deveria ser do conhecimento geral, uma vez que há sempre autores sempre afoitos e dispostos a difundir material sem que sejam feitas pesquisas prévias e fundamentação fidedignas das informações apresentadas.

223. Conceito tático: "YOMI".

Para aqueles que estudam as artes militares, os conceitos de Estratégia e Tática são bastante claros. Contudo, em se tratando do ensino contemporâneo de Artes Marciais, conceitos que deveriam ser simples, devido a erros de tradução do Japonês para os idiomas ocidentais ou simplesmente por más interpretações de autores diversos, assumem significados bastante distintos daqueles descritos nos clássicos militares das culturas mais antigas.

Este é o caso do termo Japonês "YOMI", usado por muitos, entendido por poucos.

Em primeiro lugar, vamos "entender" sobre o que falamos, começando pela tradução deste termo: o radical YOMI 読み vem do verbo YOMU 読む que significa "Ler". Portanto, a tradução de YOMI é "leitura".

Mas o que significa "leitura" para os praticantes de artes marciais japonesas dos dias atuais?

É ideia generalizada no ensino das Artes Marciais dos nossos dias que "YOMI" seria a capacidade de "ler o inimigo", saber antecipadamente o que o inimigo iria fazer ou estaria pensando.

Mas estará esta interpretação correta? Este conceito abrange "tudo" que a expressão YOMI poderia representar?

É evidente que precisamos de mais informações para podermos tirar alguma conclusão definitiva.

Na realidade, esta afirmação está longe da realidade a nível tático. Por quê? Porque à expressão "YOMI" podem ser acrescentados dois sufixos japoneses para indicar o maior ou menor grau de "leitura", isto é:

YOMIYASUI 読み易い "Fácil de ler".
YOMINIKUI 読み難い "Difícil de ler".

A partir deste ponto, muitas conclusões podem ser tiradas, mas a mais elementar é a seguinte: uma tática irrefletida ou um mau posicionamento estratégico leva, geralmente, à derrota!

É natural que num ambiente controlado como o de uma escola ou associação de Artes Marciais, a "leitura" de um colega (que conhecemos a longo tempo) ou de um companheiro de treino (do qual conhecemos suas Tokui-waza - "Técnicas nas quais somos bons") pode ser bastante fácil! 

Por outro lado,  nas competições ou nas brigas de rua, a "leitura" do inimigo pode ser uma tarefa bastante difícil, uma vez que não conhecemos as suas fraquezas e os seus pontos fortes. Portanto, precipitar-se no julgamento do adversário apenas pelo que este "aparenta" à primeira vista pode ser um erro grosseiro e fatal, onde podemos perder uma medalha ou a vida!

Assim sendo, todo praticante de Artes Militares deveria ESTUDAR os clássicos militares disponíveis a fim de que conceitos que sempre foram transmitidos de forma sólida fossem aprendidos o mais corretamente possível e não através de ideias fragmentadas que induzem ao erro e a más práticas.

sábado, 8 de novembro de 2014

222. UVAS #34 - KAMIDANA.


神棚 KAMIDANA.

As Artes marciais japonesas sempre "inspiraram" a imaginação de muitos, o que faz com que - de vez em quando - surjam "tradições" do tipo "os japoneses fazem assim", sem muita racionalidade ou fundamentadas em informação fidedigna. Assim sendo, antes de sairmos a inserir simbolismos japoneses "ao calhas" nas Artes Marciais, a primeira coisa que devemos fazer é SABER aquilo que vamos difundir.

Portanto, hoje vou abordar mais um assunto que é muito difundido, mas pouco entendido: o KAMIDANA.

Literalmente, a expressão KAMIDANA é composta por dois ideogramas: KAMI 神 ("Deus(es), divino(a)(s)") e TANA 棚 ("prateleira, estante").

Basicamente, o KAMIDANA é uma miniatura de um templo da RELIGIÃO SHINTÔ. (O problema já começa aqui, onde entra a religião no mundo marcial sem que se tenha noção exata do que isto representa!)

Como os ocidentais acham "bonitinho" ter uma "coisa japonesa" pendurada na perade do Dôjô, pouca ou nenhuma importância é dada ao real significado do KAMIDANA e os procedimentos a esta peça associados.

Em primeiro lugar, e o mais importante, na presença de um KAMIDANA as saudações no começo e final do treino obrigatoriamente MUDAM, pois é necessária a saudação HAIREI 拝礼... desnecessário dizer que esta saudação tem significado religioso! Da mesma forma que a expressão KAMIDANA, o termo HAIREI está dividido em dois ideogramas: HAI 拝 ("adoração, veneração, louvor a") e REI 礼 ("saudação, vênia, reverência"). Como pode ser visto, o primeiro ideograma já traz a carga religiosa. (Não é meu objetivo falar sobre religião, nem a quem este "louvor" ou "adoração" é dirigida, pois eu não acredito que religião deva se misturar com Artes Marciais (tudo tem sua hora e lugar).)

Em segundo lugar, o aspecto religioso do KAMIDANA leva à questão seguinte: quem honestamente tem as habilitações necessárias para inserir uma religião japonesa (Xintoísmo ou Budismo) em um treino de Artes Marciais? eu disse "honestamente"... 
Posso contar, usando os dedos de uma única mão, aquelas pessoas com habilitações religiosas e marciais necessárias e nenhuma delas é ocidental.

Para minimizar esta distância entre a fantasia e a realidade, irei indicar como é feito o HAIREI, sendo este utilizado em Dôjô que sigam o ensinamento Xintoísta (o que eu não conheço no ocidente).

- HAIREI -

1. Posicionar-se diante do KAMIDANA (de pé ou em Seiza). Fazer DUAS vênias formais (o corpo em um ângulo superior a 45 graus se Ritsurei (de pé) e a cabeça quase a encostar no solo em Zarei (em Seiza).

2. Voltar à posição inicial e bater palmas duas vezes à altura do peito, a mão direita um pouco abaixo. 
(Neste ponto há detalhes que eu não vou entrar.)

3. Fazer mais uma vênia formal.

Esta é a saudação que se espera diante de um kamidana que não seja um Kamidana "estético".

Conclui-se que a falta de conhecimento efetivo a respeito das tradições japonesas apenas complicam o que deveria ser basicamente muito simples: treinar uma arte marcial.

"Mas "aquilo" fica bonito na parede..."
Pode ficar "bonito na parede", mas fica horrível na observação e respeito à tradição japonesa.

Aprender certo, fazer certo.
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Aqui se pode ver o HAIREI feito corretamente no Japão, num templo Shintō (0:50 a 1:04):
靖国神社 みたままつり

E aqui está um vídeo do Steven Seagal executando o HAIREI diante de um Kamidana. (Não sei a razão pela qual ele bate palmas quatro vezes, mas...)


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

221. UVAS #33 - Sentar à direita ou à esquerda?


Observe que a disposição do DŌJŌ obedece ao mesmo posicionamento, isto é, mais graduados à direita (KAMIZA/JŌSEKI) e menos graduados à esquerda (SHIMOZA/SHIMOZEKI).



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

220. Olimpíadas - Tōkyō 2020

WORLD KARATE CAMPAIGN
JKF did too little, too late. Karate is out of Olympic now!

Almost two decades ago, when south Korea was going to host the Olympic, Taekwondo got the IOC majority and was fully recognised as an Olympic sport. Comparing Taekwondo and Karate; Karate was much biger and popular than Taekwondo at that time and of course still is. Everyone knows that South Korea's Taekwondo Federations had a successful strategy and earned IOC votes for its traditional martial art, Taekwondo.

Now, Tokyo will be hosting the Olympic games in 2020. Thomas Bach the president of the international Olympic Committee officially confirmed that karate will not be in Tokyo Olympics 2020. With Bach's announcment, JKF that has already been suffering from disunity in Japan has now lost many of its members including JKA. They now find themselves in a critical situation. Japanese Karstekas believe that JKF did too little, too late for karate to be in the Olympics 2020.

“A CAMPANHA DO KARATE MUNDIAL
A Federação Japonesa de Karate (JKF) fez muito pouco, muito tarde. O Karate está fora das Olimpíadas agora!

Quase há duas décadas atrás, quando a Coreia do Sul ia sediar as Olimpíadas, o Taekwondo obteve a maioria do Comitê Olímpico Internacional (COI) e foi completamente reconhecido como um desporto Olímpico. Comparando-se o Taekwondo e o Karate, o Karate era muito maior e popular do que o Taekwondo naquela ocasião e, é claro, ainda continua a ser. Todos sabem que as Federações de Taekwondo da Coreia do sul tem uma estratégia de sucesso e conseguiram os votos do COI para a sua arte marcial tradicional, o Taekwondo.

Agora, Tōkyō irá sediar os Jogos Olímpicos em 2020. Thomas Bach, o presidente do Comitê Olímpico Internacional confirmou oficialmente que o Karate não estará nas Olimpíadas de Tōkyō de 2020. Com o anúncio de Bach, a JKF que já tem sofrido de desunião no Japão, agora perdeu muitos dos seus membro, incluindo a Associação Japonesa de Karate (JKA). Eles agora encontram-se em uma situação crítica. Os karateka Japoneses acreditam que a JKF fez muito pouco, muito tarde para estar nas Olimpíadas de 2020.

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Antes de deixarmos as paixões à flor da pele falarem mais alto, vamos ver o que realmente está em jogo em se tratando da passagem de uma “Arte Marcial” a “Desporto Olímpico” e, para fazê-lo, nada melhor do que apresentar um exemplo prático: o Jūdō – um exemplo concreto de uma Arte Marcial com posterior inclusão nos Jogos Olímpicos.
Vamos, em primeiro lugar, conhecer esta arte e, só depois, tecer analogias com o Karate.
O Jūdō, de forma bastante simplista, é o aperfeiçoamento de técnicas de combate de duas escolas distintas de Jūjutsu (antiga arte marcial japonesa usada nos campos de batalha para “matar” outro ser humano), a saber: Kitō-ryū (de onde saíram as nage-waza “técnicas de projeção”)   e a Tenjin Shin’yō-ryū (de onde saíram as Katame-waza “técnicas de controle” do adversário – através de imobilizações, estrangulamentos e chaves às articulações – e as Atemi-waza “técnicas de pancadas em pontos vitais”).
Além destas três divisões, o Jūdō (antigo e contemporâneo) ainda apresenta mais duas: Kappō “Técnicas de reanimação” e Kata “formas preestabelecidas de treino formal”.
É exatamente este o Jūdō responsável pela derrota da coligação de escolas tradicionais de Jūjutsu em 11 de Junho de 1886, cuja competição iria decidir a arte a ser ensinada em organizações militares, departamentos de polícia e escolas, evento organizado pela Academia de Polícia Metropolitana de Tōkyō, no templo Yayoi, onde foram colocados frente a frente o Kōdōkan Jūdō vs. Totsuka Ha Yōshin-ryū Jūjutsu. Foram 15 combates, onde o Kōdōkan Jūdō perdeu 2, empatou 1, venceu 12!

"Sob os auspícios do Chefe da Polícia Metropolitana, uma grande competição foi arranjada entre ambas as escolas (Jūdō e Jūjutsu). Era uma batalha decisiva. Derrota teria sido fatal para o Kōdōkan. Mas, naquele torneio, para o qual foram selecionados 15 elementos de cada escola, o Kōdōkan venceu todos os combates, exceto dois e um que terminou em empate. Aquela brilhante vitória estabeleceu de uma vez por todas a supremacia do Kōdōkan Jūdō sobre todas as escolas de Jūjutsu."

Para quem conhece Jūjutsu, o Jūdō ter sido capaz de tal feito não seria possível apenas com as técnicas que se vê nos Jogos Olímpicos! Daí este Jūdō Olímpico ter permitido o ressurgimento do “neo- Jūjutsu” para suprir a falta de um Jūdō voltado à defesa pessoal efetiva.
Mas o Jūdō “evoluiu” e passou a ser Desporto Olímpico… aqui, o Jūdō começa a perder a sua efetividade como “arte marcial” e passa a ser “desporto”, pois as técnicas de Atemi (“ataques a pontos vitais do corpo humano” – que eram técnicas letais e, portanto, proibidas de serem usadas nos Jogos Olímpicos) e as Kappō (“técnicas de reanimação” – por já não se aplicarem) foram completamente suprimidas. Conclui-se, naturalmente, com o advento Olímpico, a “arte marcial”, perdeu.
Por outro lado, a inclusão do Jūdō nos Jogos Olímpicos popularizaram o Jūdō, fazendo que o número de praticantes esteja sempre a crescer. Isso é um aspecto positivo a nível de difusão do Jūdō, não como arte da guerra, mas como forma de união fraterna, o que é o preceito básico do tão famoso “Dō”, conhecido por todos nós e implementado da sociedade japonesa a partir da era Meiji.
Portanto um Jūdō sem Atemi ou Kappō é um Jūdō feito a 60% da sua total efetividade, o que está bastante longe da sua expressão prática ideal, mas, sejamos realistas, o período de guerras (Sengoku Jidai), os samurai já não existem e a necessidade de “matar outro ser humano” está longe de ser uma prioridade em treino marcial contemporâneo.
Devemos ter em mente que a ideia original de Kanō Jigorō (o fundador do Jūdō) sempre foi de completo apoio à competição, por achar que esta servia como aplicação – em tempos de paz – das técnicas do Jūdō e isso ficou bastante claro com a criação das competições Kōhaku em 1884.
Portanto, conhecidas as diferenças necessárias para que o Jūdō passasse de “Arte Marcial” a “Desporto Olímpico”, o que foi perdido e o que atualmente não se faz a menor ideia que ainda exista sobre o Jūdō original, podemos traçar comparações com o Karate e eliminar alguns “enganos” feitos e difundidos de forma (in)consciente.
Para começar, precisamos de saber o que significa ser o Karate como “Arte Marcial”: há pouca documentação a nível histórico do uso do Tōde (arte precursora do Karate atual) como “arte militar” usada em campos de batalhas e, portanto, a sua “eficácia” vem dos tempos de paz.
Mesmo que o Tōde seja um sistema codificado de combate efetivo originário nas artes mais antigas Chinesas, sendo  incorporadas às técnicas nativas do Reino de Ryūkyū (antigo nome de Okinawa, antes de invasão japonesa), o “produto final” é bastante recente. De fato, os registos históricos mostram que o Karate tal qual conhecemos hoje em dia tem pouco mais do que uma centena de anos apenas.
Aquilo que o Karate apresenta como “técnicas de socos” e “técnicas de chutes” visam áreas genéricas de ataque (Jōdan, Chūdan e Gedan) nunca entrando nos aspectos mais profundos sobre os pontos exatos a atacar. Pela documentação antiga, veem-se diagramas, desenhos, cartazes de pontos vitais usados pelas artes “Chinesas” (artes de cura ou combate) e – este é meu ponto de vista – estes grafismos nunca foram completamente explorados, estudados ou entendidos em Okinawa (isso é fácil de observar quando algumas escolas, a fim de minimizar esta deficiência de conhecimento, optam pelo endurecimento das mãos e dos pés a fim de que não seja necessário saber onde o ataque irá acertar, uma vez que o condicionamento das mãos e dos pés supostamente “garantem” a destruição do alvo necessária, mas estas mesmas escolas esquecem, com frequência, que o condicionamento das “armas naturais” acarreta na destruição ou inutilização do movimento natural das áreas condicionadas com o passar dos anos).
Nos períodos das guerras internas Chinesas com objetivo de unificar a China, no período feudal japonês onde os Shōgun viviam em guerra a fim de aumentar os seus feudos, “testar” as técnicas de combate era bastante fácil, saber os efeitos de um ataque a determinada área do corpo humano, cortar, esmagar, quebrar… tudo era possível e permitido, sendo tudo codificado nas artes militares.
Para complicar ainda mais a situação do Karate, historicamente este encontra-se dividido em Escolas (Kan), Associações (Kai), Estilos (Ryū), Linhas (Ha) etc… Cada uma destas divisões a “puxar para o seu lado”.
Há muito o que se diga sobre o Karate, tanto como “Arte Marcial” como “Desporto”, mas eu acredito que a inclusão do Karate como Desporto Olímpico, nesta altura, não seria benéfico para uma arte que ainda está em fase de organização (ou não).


domingo, 12 de outubro de 2014

219. Fujian...

O JOAQUIM E O MANUEL VÃO A PORTUGAL APRENDER KARATE.
Nas primeiras décadas do século XIX, o Joaquim morava no arquipélago dos Açores e decide que vai a Portugal aprender Karate. 
Passados alguns anos, Joaquim retorna de Portugal e diz que aprendeu Karate com o mestre "João" e funda a sua escola de Karate.
Algum tempo mais tarde, o Manuel, também residente nos Açores, vai a Portugal com a mesma finalidade: aprender karate.
Passados alguns anos, Manuel retorna de Portugal e diz que aprendeu Karate com o mestre "João" e, como o Joaquim, também funda a sua escola de Karate… contudo a escola do Manuel apresenta algumas características diferentes se comparadas com a escola do Joaquim.
E assim temos a história do começo do Karate no arquipélago dos Açores!
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O que está a faltar nesta estória?

1º - Pode-se afirmar que o Joaquim e o Manuel foram para a mesma cidade em Portugal? Indubitavelmente: NÃO! Um poderia ter ido para Lisboa e o outro para Faro. Um poderia ter desembarcado no Porto e o outro em Sagres… "Ir a Portugal para aprender artes marciais" é muito "vago" e não especifica absolutamente nada!

2º - Pode-se afirmar que o mestre “João” é a mesma pessoa que ensinou ao Joaquim e ao Manuel? Indubitavelmente: NÃO! O nome “João” por si só não diz nada… e, considerando-se que os nomes de família Portugueses também podem ser idênticos, afirmar que se trata da mesma pessoa é um erro de novato a nível de pesquisa histórica!

Portanto, não se tem informação suficiente para “afirmar”, com 100% de certezas de que o Joaquim e o Manuel tenham:
1 - estado no mesmo local em Portugal,
2 - treinado com a mesma pessoa ou
3 - aprendido a mesma coisa.
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Isso tudo para explicar, de forma simples, o que se passou com a história do Karate e da ida dos mestres de Okinawa a Fujian (China) para aprenderem artes marciais.

Em primeiro lugar, Fujian é uma província Chinesa (e não uma cidade ou um lugar minúsculo) com uma área de 121.400 Km2... Apenas para dar uma ideia, Portugal tem uma área de 92.090 Km2… ou seja, a província de Fujian, por si só, é maior que Portugal! 

Em segundo lugar, não sei se notaram, NINGUÉM diz para ONDE em Fujian foram os referidos mestres antigos. Lembrem-se: Fujian é maior que Portugal! Quem disse que os mestres de Okinawa foram exatamente para os mesmos locais em Fujian?

Em terceiro lugar, os mestres eram de Okinawa e estavam na China, as línguas são completamente distintas! Não seria de se esperar problemas como um “mestre João”, uma vez que a língua Chinesa é toda monossilábica?

E, para concluir, NÃO EXISTE QUALQUER DOCUMENTO OFICIAL que comprove a existência do “alegado” mestre “Rū Rū Kō” na China ou em Fujian. Estamos perante a mais um problema de pronúncia Chinesa por parte dos mestres de Okinawa? (Esta suposição é bastante plausível!)

Portanto, insistir em algo que não pode ser comprovado – já tendo equipas especializadas e habilitadas Japonesas e de Okinawa que falharam nesta “demanda” – parece-me ser como “procurar ninhos de cavalos”, uma vez que há muito mais coisas “sólidas” a nível de Karate com o que devemos realmente nos preocupar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

218. UVAS #32. Mostra-me o teu faixa branca...


Acho extremamente interessante o fato de que a maioria das pessoas esquecem a história.
Uma das lições mais básicas e elementares da história é a construção das pirâmides. 

Apenas a base sólida faz a solidez de uma construção.

Acho curioso, também, em estágios ser dada mais atenção ao ensino dos faixas pretas  - quando estes já vêm com certos "vícios" dos seus instrutores - e colocarem à parte os alunos de menor graduação (que são a base, o fundamento de uma escola).

Ou seja, começa-se por dar atenção ao topo da pirâmide e relega-se para segundo plano os seus alicerces, a sua base. O que se pode esperar? Justamente o que se tem visto! O desmoronar de inúmeras pirâmides.

Não é por nada que os mestres Japoneses de artes marciais insistem no KIHON, KIHON e KIHON! Mas continuamos surdos, cegos e mudos a este respeito! 

(^_^)