terça-feira, 6 de dezembro de 2011

36. Seiyunchin ou Seienchin (º_º?)


Como se romaniza o nome do Kata 型: Seiyunchin, Seienchin ou Seiinchin?

Para entenderemos este assunto e posicioná-lo corretamente no contexto histórico é necessário entendermos que a escrita japonesa utiliza os ideogramas (Kanji 漢字) que foram copiados pelos japoneses a partir da escrita chinesa no século V quando foi feita a introdução do Budismo no Japão [contra isso, não há argumentação possível, pois é fato histórico!].

Mas... em se tratando de nomes de Kata 型 temos de - obrigatoriamente - adicionar um fator importantíssimo à situação: o arquipélago de Okinawa 沖縄, antigamente conhecido por "Ryûkyû 琉球", onde este Kata era conhecido por Sēenchin..

Como também já é sabido, Okinawa 沖縄 tinha um idioma próprio antes da invasão japonesa e, conseqüentemente, tinha a sua própria forma de ler os ideogramas chineses.

No caso dos Kanji 漢字 que indicam o nome deste kata, estes podem ser escritos de três maneiras diferentes: 
1. 制引鎮 
2. 制引戦
3. 征遠鎮 

Se analisarmos apenas pela pronúncia japonesa (muita atenção para este fato, ou seja, a pronúncia "japonesa") teremos três tipos possíveis de leitura para o mesmo ideograma (ora bem... três formas de ler o mesmo caracter), ou seja:
1. On'yomi 音読み, 
2. Kun'yomi 訓読み e 
3. Nanori 名乗り:

On'yomi 音読み (trad. lit.: "leitura do som") - é a forma japonesa da pronúncia chinesa - ou seja - como os japoneses "ouviram" e adaptaram ao próprio idioma o "som" ideograma falado em <Chinês>.

Kun'yomi 訓読み (trad. lit.: "leitura instruída") - é a <palavra nativa japonesa> correspondente ao ideograma chinês

Nanori 名乗り (trad. lit.: "Registro do nome") - Leitura utilizada quando o ideograma é usado em "nomes de pessoas" apenas.

Assim, decompondo as duas formas escritas do nome do Kata:

1º Kanji: 制 "sistema, lei, regra"
On'yomi 音読み: Sei

2º Kanji: 引 "puxar". 
On'yomi 音読み: In
Kun'yomi 訓読み: Hiku, Hiki, Hiki-, -Bi(ki), Hi(keru)
Nanori 名乗り: Ina, Hiki, Hike, Biki

3º Kanji: 戦 "Guerra, batalha, confronto".
On'yomi 音読み: Chin
Kun'yomi 訓読み: Ikusa, Tataka(u), Onono(ku), Soyogu, Wanana(ku)
Nanori 名乗り: Se

 ou (usando a outra forma de escrita do nome do Kata)


1º Kanji 征 "Subjugar".
On'yomi 音読み: Sei
Kun'yomi 訓読み: Iku, So, Tada, Masa, Yuki

2º Kanji: 遠 "à distância, longe"
On'yomi 音読み: En, On
Kun'yomi 訓読み: Too(i)
Nanori 名乗り: O, Oni, Do, Doo

3º Kanji: 鎮 "pacificar, preservar a paz, centralizar".
On'yomi 音読み: Chin
Kun'yomi 訓読み: Shizu(meru), Shizu(maru), Osae
Nanori 名乗り: Shige, Jin, Chika

Assim, temos aqui algumas traduções possíveis para o nome deste Kata:
制引戦 - "Sistema de lutar a puxar" (porque é isso exactamente que fazemos nos primeiros movimentos deste Kata) ou 征遠鎮 - "Subjugar e tranquilizar" etc..

Voltando à questão de "como" transcrever o nome do Kata, as pessoas que escrevem obras com uma romanização em que aparece "Seiinchin 制引" também têm razão, isto é, se olharmos apenas para a versão "japonesa" da coisa. Neste caso, o termo é - usando apenas On'yomi - romanizado a partir do japonês como sendo Sei"in"chin... Mas o que estas pessoas não sabem (ou se sabem, fazem-no de forma intencionalmente errada) é a própria história do Karate, porque elas NÃO apresentam o Karate como sendo uma arte que teve origem em Okinawa (o que é um erro). E lá, em Okinawa, não se usava a leitura "japonesa" "In [引]" para o referido caractere em se tratando de Kata.
Alguém, então, pode perguntar: "É errada a romanização Seiinchin?" 
Não, não é. Apenas está completamente fora do contexto histórico e cultural no que se refere ao Karate 空手 (pois esquece a origem histórica do Karate como uma Arte de Okinawa).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

35. KIMONO 着物 - Isso não existe em Karate!


KIMONO 着物 significa literalmente "coisa de/para vestir":

KI 着 - "vestir, usar (roupa)",
MONO 物 - "coisa, objeto".

O "KIMONO 着物" é a roupa de uso diário no Japão, por isso tal roupa não existe em qualquer arte marcial japonesa. Então, não se usa "KIMONO [着物]" em artes marciais! Os artistas marciais usam roupas específicas de suas artes.


De uma forma específica no Karate 空手 se usa:

KARATEGI 空手衣
  KARATE 空手 – mãos vazias
  GI 衣 - neste caso significa roupa
  KARATEGI 空手衣 - roupa de/para karate.

O Karategi está dividido em:

UWAGI 上着 - "Roupa de cima" - Parte de cima do Karategi, casaco.
SHITABAKI 下履 - "Vestir por baixo" - Parte de baixo do Karategi, calças.
OBI 帯 - Faixa / cinto.

De uma forma mais abrangente os uniformes podem ser chamados de:

KEIKOGI 稽古衣
  KEIKO 稽古 - significa prática, treino
  GI 衣 - neste caso significa roupa
  KEIKOGI 稽古衣 - significa roupa de/para treino

DŌGI - Aqui é interessante... Dependendo do ideograma para DŌ, duas traduções são possíveis:

DŌGI 道衣
 DŌ 道 - caminho, via
 GI 衣 - neste caso significa roupa
 DŌGI 道衣 - roupa do caminho, roupa da via.



DŌGI 動衣
 DŌ 動 - movimento, treino
 GI 衣 - neste caso significa roupa
 DŌGI 動衣 - roupa de/para movimento, roupa de/para treino.

(^_^)

34. *** Revisão 01: Termos. ***


Justificativa para utilização de termos e comandos japoneses no Karatedō

 Que Karateka não pensou em alguma ocasião porque sendo ocidentais usamos termos japoneses nas classes de Karatedō? Pois isto pode ser respondido de várias formas.
 A primeira maneira poderia ser: para preservar a tradição e seguir mantendo a ordem estabelecida pelos mestres que nos antecederam, embora esta justificativa não convença à todos.
 O segundo motivo poderia ser porque ao utilizar termos desconhecidos pelos alunos o professor adquire um halo de misticismo ou de superioridade mal entendida que deriva da utilização de uma linguagem difícil de entender ou desconhecida pelo principiante. Algo semelhante ocorre em algumas associações profissionais, que ao possuir uma linguagem própria podem mostrar-se inacessíveis ou simplesmente proteger suas informações. Contudo, aqueles que adotassem esta conduta cairiam por seu próprio peso.
 Um terceiro argumento, provavelmente o mais real e convincente, é que ao utilizar um vocabulário japonês no Karatedō permite que as expressões, termos e comandos desta arte marcial tenham um caráter universal e possam ser compreendidas e utilizadas por todos igualmente, ainda mais quando estas palavras ou comandos têm um significado de origem simbólica.
 Porém, devemos esclarecer algo muito importante: Se perguntássemos a um japonês não praticante de Karatedō o significado das palavras Bassai Dai, Kime, Bunkai, etc... com certeza ele, por não conhecer o contexto, não saberia defini-las corretamente e provavelmente nos diria algo que não teria nada a ver com o Karatedō.
 Portanto, a utilização de termos japoneses na prática do Karatedō, possibilita que os Karateka de qualquer nacionalidade possam entender- se entre si e praticar em harmonia sem ter o idioma como uma barreira.Da mesma forma, a nomenclatura japonesa permite que um Sensei possa dirigir-se a um grupo de praticantes de diferentes nacionalidades e mediante um simples termo poder fazer-se entender por todos. Isto é possível porque a palavra em japonês atua no ouvinte como um “símbolo”, do qual os receptores conhecem a definição ou significado próprio em seu idioma, caso contrário o Sensei teria que explicar a “palavra” ou “conceito” em tantos idiomas quanto fossem as diferentes nacionalidades presentes, como por exemplo, em um Seminário Internacional.
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Artigo original: Revista "Cinturón Negro".
Tradução: Andretta, Denis.


<Critica postada por Joséverson Goulart em 25/11/2007 no Grupo MSN:>

De acordo com o artigo publicado acima, as razões para utilizarmos termos japoneses no Karatedō são as seguintes: preservar tradição da Arte, "Halo místico" incompatível com a Arte e padronização universal dos comandos e nomenclaturas da Arte. 

Todas as razões são completamente válidas e inquestionáveis... mas o que o artigo não aborda é a questão:

"Sabemos REALMENTE o que significam os termos japoneses que utilizamos no Karatedō?"

Como sou muito pragmático em se tratando do ensino e aprendizagem de artes marciais japonesas, vou comentar um fato verídico - pois eu estava presente quando ocorreu - que demonstra que a utilização de termos japoneses nas artes marciais, mesmo que tenha boas intenções, na maioria dos casos não passa de demagogia. 
Passemos, então, ao fato verídico:

Estava num estágio de Karatedō quando um 5º Kyū perguntou ao seu Sensei (não vou indicar a graduação, por motivos óbvios) o que significava ZENKUTSU-DACHI. Como eu estava muito próximo do aluno e instrutor, fiquei para ouvir a explicação.

O Sensei responde: "Zenkutsu-dachi faz-se assim..." E assim o aluno ficou "esclarecido", mas permaneceu com aquele "ar" de que não era bem esta a resposta que ele procurava.


De fato, é isso que ocorre na vida real, sem blá blá blá teórico. 

Os termos japoneses têm realmente as qualidades indicadas nos pontos anteriores, mas só se soubermos o que eles significam de verdade, caso contrário tudo que diz respeito a estes mesmos termos caem na razão número dois do artigo publicado acima, ou seja, aquelas "tretas místicas", que são pateticamente visíveis quando um instrutor não sabe do que está a falar.


Há muito tempo atrás o mestre Aragão de Lisboa disse algo que faz todo o sentido: "Em Karatedō não há enganos: ou é ou não é, ou se sabe ou não se sabe!"


E é por isso que TODOS os instrutores, os "sensei" são OBRIGADOS a pesquisar e saber o que ensinam... copiar e imitar faz bem nos primeiros passos de qualquer arte, mas saber realmente é obrigação daqueles mais avançados, daqueles que estão a ensinar!

Eu penso que não saber não é vergonha, vergonha é contentarmo-nos com o pouco que sabemos.

Ah! ZENKUTSU-DACHI significa "Posição inclinada para frente":

前 ZEN - Para frente, frontal
屈 KUTSU - Inclinada, pender para
立 DACHI - Posição, postura, base

Nas artes marciais japonesas tudo é facilmente explicável, desde que saibamos do que estamos a falar.

Se vale mesmo a pena utilizar termos japoneses no Karatedō, então este problema seria resolvido facilmente com testes teóricos sobre toda nomenclatura japonesa necessária para cada graduação.

Mas aqui apresenta-se o primeiro problema: o teste teórico faz com que os instrutores tenham de saber, e no caso de não saberem, serem "forçados" a pesquisar e estudar o Karatedō... o que é, para uma grande maioria dos instrutores, uma verdadeira "perda de tempo" ("...pois o que nós queremos é combater").

Para esta vertente "belicista" que não quer estudar o Karatedō, vou apenas dar um exemplo de "problema" que um 5º Kyū enfrenta em se tratando de nomenclatura japonesa ensinada pelos mesmos no caso do HEIAN NIDAN.
Neste Kata surgem:
Uchi-Otoshi [打落し];
Choku-zuki [直突];
Gedan-barai [下段払];
Jōdan Age-uke [上段揚受];
Shutō-uchi [手刀打];
etc...

Os seus 5º Kyū realmente sabem o que estes termos significam?

Se o instrutor responder que "sim" a esta pergunta, então este instrutor sabe o que está a ensinar e está a criar futuros excelentes instrutores.

Se a resposta do instrutor for "não", então talvez seja necessária uma "reciclagem" ao instrutor em questão a respeito dos termos japoneses.


O que nos leva à questão de avaliação do conhecimento de quem ensina e o que ensina...


O que poderia ser uma simples questão de termos japoneses, transforma- se numa avaliação aprofundada do sistema de ensino das Artes Marciais... e observem que eu nem abordei a situação do Karatedō como "Caminho de vida".

33. Agressor e Defensor.

É do conhecimento cotidiano - nos círculos do Jūdō 柔道 e Aikidō 合気道 - que os termos para "agressor" e "defensor" - em se tratando de prática das técnicas - são Uke 受け e Tori 取り, respectivamente.

受け Uke - "Agressor" - literalmente significa "receptor", aquele que "recebe" a técnica.
取り Tori - "Defensor" - aquele que executa a técnica.

Por outro lado, como já parece ser característica do próprio Karate, estas denominações (que são de uso padrão nas artes acima mencionadas) também são diferentes... e chegam mesmo a variar de escola para escola.

Vou indicar alguns exemplos de nomenclaturas utilizadas por autores conhecidos de livros sobre Karate.

1. Kanazawa Hirokazu, no seu livro Karatedō - Kumite Kyōhan:
攻撃 Kōgeki - "Agressor".
防禦 Bōgyo - "Defensor". 

2. Yamaguchi Goshi, no seu livro Karatedō - Gōjū-ryū no Kumite Gihō:
攻め Seme - "Agressor" .
受け Uke - "Defensor"... o contrário do Jūdō 柔道 e Aikidō 合気道. 

3. Mabuni Kenwa, no seu livro Kōbō Kenpō - Karatedō Nyūmon:
乙 Otsu - "Agressor".
甲 Kō - "Defensor".
(No mesmo livro, Mabuni Kenwa refere-se ao "Agressor" como Teki 敵 "Inimigo".)

4. Motobu Chôki e Funakoshi Gichin:
攻め手 Semete - "Agressor".
受け手 Ukete - "Defensor".

Etc..
---

Para mim, faz mais sentido as denominações feitas por Yamaguchi porque em Karate "Uke" também significa "Defesa". Além disso "Seme" vem do verbo Semeru "atacar".

Mas, quando não há uma "linha" a ser seguida, os instrutores de Karate ocidentais costumam usar genericamente os termos Semete 攻めて e Ukete 受けて para designar tais posições.


32. Convenções no Karate.

Há um aspecto que os instrutores devem levar em consideração quando estão a ensinar ou a comandar uma classe: a ordem correta como devem ser ditos os nomes e comandos em japonês.
Sem entrar naqueles "blá blá blá místicos", a "regra geral" é assim: 

LADO-NÍVEL-TÉCNICA. 

LADO:
右  Migi - "Direita".  
左  Hidari - "Esquerda".

NÍVEL:
上段 Jōdan - "Nível superior".  
中段 Chūdan - "Nível médio (central)".
下段 Gedan - "Nível inferior".

Primeiro deve-se dizer o lado para o qual será executada a técnica; depois o nível em que vai ser executada a técnica e, por fim, a técnica a ser feita.
Por exemplos: 

左上段揚受 HIDARI-JŌDAN-AGE-UKE
左     HIDARI: "à esquerda" => Lado
上段    JŌDAN: "nível superior" => Nível
揚受    AGE-UKE: "defesa ascendente" => Técnica

右中段回蹴 MIGI-CHŪDAN-MAWASHI-GERI
右     MIGI: "à direita" => Lado
中段    CHŪDAN: "nível médio" => Nível
回蹴    MAWASHI-GERI: "chute circular" => Técnica

Em casos mais específicos, características especiais vêm em primeiro lugar e a regra geral acrescenta mais um aspecto: DETALHE-LADO-NÍVEL-TÉCNICA.
Por exemplo: 

斜左下段払い NANAME-HIDARI-GEDAN-BARAI
斜      NANAME: "diagonal" => Detalhe
左      HIDARI: "à esquerda" => Lado
下段     GEDAN: "nível inferior" => Nível
払い     HARAI: "varrer" => Técnica

Existem, como em toda regra, exceções... que é o caso de KIZAMI 刻. Este termo refere-se ao membro que estiver mais próximo ao adversário (mais à frente) e, neste caso, são dispensados DETALHE e LADO, bastando indicar Nível (se for o caso) e técnica. 
Se formos pelo "significado" do ideograma KIZAMI 刻, a tradução que mais se aproxima do movimento feito em Karate é "estocada", um ataque rápido e repentino na distância mais curta possível (feito com membros que estão mais à frente).

Exemplos: 

刻上段回突 KIZAMI-(JŌDAN)-MAWASHI-ZUKI
刻     KIZAMI:"estocada - com o braço da frente"
上段    JŌDAN: "nível superior" => Nível
回突    MAWASHI-ZUKI):"soco circular" => Técnica

刻中段前蹴 KIZAMI-(CHŪDAN)-MAE-GERI
刻     KIZAMI:"estocada - com a perna da frente"
中段    CHŪDAN [ちゅうだん] (tchúdán): "nível médio" => Nível
前蹴    MAE-GERI [まえげり] (máê-guêri):"chute frontal" => Técnica

MAE-GERI 前蹴 "chute frontal" é freqüentemente substituído apenas por KIZAMI-GERI 刻蹴. 

Nas fontes fidedignas sobre Karate estas convenções são obedecidas (entre outras convenções) e é desta forma que devem proceder os instrutores a fim de ensinarem de forma padrão os seus estilos de Karate. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

31. Faixa preta desbotada.

-Your belt... ?!
-Now I am a "Great master".

Cada pessoa é única e, da mesma forma, os seus pensamentos. As idéias de cada um são válidas e justificadas na medida em que expressam o seu conhecimento particular. 

Em relação a "faixa preta desbotada", não concordo com a afirmação de que a mesma represente "anos de treino" ou que tenha um caráter simbólico transcendente (idéias muito difundidas em nossos dias) e digo isso com base em três razões básicas:
  1. Esta característica, as faixas pretas em farrapos, só é vista em Karatedō. Em Jūdō ainda não vi tal fenômeno, mesmo em Jūdōka muito idosos, com dezenas e dezenas de anos de prática efetiva. Observe que em Jūdō existem técnicas em que é necessário agarrarmos e puxarmos as faixas dos adversários - e estas se mantêm íntegras mesmo com dezenas de anos de prática (e se não se mantém intactas, são substituidas). 
  2. O problema mais grave sobre este assunto é que a cultura japonesa prima pelo asseio pessoal. É simplesmente incabível usarmos um Jūdōgi ou Karategi em farrapos, da mesma forma que é difícil compreender como é possível usar parte do mesmo (a faixa) em péssimas condições. É como um Samurai andar com uma espada enferrujada à bainha. Cuida-se do próprio material porque - aqui sim - o material é o espelho do praticante e, portanto, um cuidado com a nossa apresentação pessoal e com o nosso próprio equipamento é fator primordial. 
  3. Outro ponto interessante a respeito das faixas esfarrapadas que também pode ser visto dentro do Karatedō é o fato de que este fenômeno ocorre também em praticantes que não tem tantos anos de treino quanto isso e, portanto, leva-nos a concluir que é um fenômeno que se expande por imitação, ou seja, a fútil idéia de que "aparência é competência". 
Se analisarmos a idéia de que "A faixa branca simboliza a pureza, o ponto de partida de tudo, e quando sua faixa está ficando desbotada ou ficando branca, simboliza uma volta as suas origens, pois, é sempre bom que o praticante nunca esqueça onde ele começou seu aprendizado no caminho da arte marcial que escolheu em especial aqui o Karatedō." poderíamos pensar que ao deixar a faixa mostrar o seu interior estaríamos a simbolizar uma volta as origens... Mas isso está completamente errado!

(In)felizmente isso não pode ser encarado desta maneira porque o Karatedō (o Jūdō ou qualquer outra arte japonesa) simplesmente NÃO começa na faixa branca. O Karatedō, o Jūdō etc. começam na realidade na primeira faixa preta. E é por isso que a primeira faixa preta chama-se Shodan 初段 ("Nível inicial"). 

Cumpre-me lembrar que estamos a falar de cor da faixa e sua utilização efetiva e se tivermos - nesta linha de pensamento - de "voltar às origens", devemos mesmo utilizar uma faixa imaculadamente preta, pois aqui sim iniciamos o treino nas artes marciais. As demais cores anteriores são níveis preparatórios para o começo do treino efetivo. 

Uma coisa é certa: estamos todos de acordo com o simbolismo da "volta às origens", mas a faixa original daquele indivíduo que realmente "começou" no Karatedō, ou qualquer outro Shodan 初段 é, inegavelmente, preta

Sendo bastante pragmático, acredito que somos adultos o suficiente para não termos de ter "uma marca pendurada à barriga" para lembrar que devemos ser humildes. A humildade vem com a educação. Se tivermos aprendido previamente o que é humildade, o que é ser humilde, não precisaremos de ter "lembretes" pendurados ao redor do corpo (de qualquer espécie). 

Existe ainda mais um ponto que gostaria de comentar... 

Há aqueles que dizem: "Nunca devemos comparar Jūdō com Karatedō, pois cada arte tem sua forma de entender as coisas." 

Bem. Como estamos a falar de faixas, esta afirmação seria válida se os fatos históricos sobre o próprio Karatedō a validasse - o que, definitivamente, não é o caso. 

Relembremos então, de forma extremamente resumida, a história da introdução do Karatedō no Japão (coisa que - como a teoria da própria arte - a maioria dos instrutores de Karatedō esquece)... 
"Após a visita de Kanō Jigorō 嘉納治五郎 (Fundador do Jūdō 柔道) à Okinawa 沖縄, onde o mestre do Jūdō 柔道 sugeriu aos mestres de Karatedō 空手道 que as suas artes fossem apresentadas no Japão, Funakoshi Gichin 船越義珍 foi escolhido para introduzir o Karatedō 空手道 no Japão. A fim de tornar o Karatedō 空手道 mais aceitável ao povo japonês, Funakoshi Gichin 船越義珍 copiou o Jūdōgi 柔道着, chamando-o Karategi 空手着 e "copiou também as graduações do Jūdō 柔道". (...)" - O resto são fatos históricos.
Assim sendo, não só podemos comparar as graduações do Karatedō [空手道] com as graduações do Jūdō [柔道], como também somos capazes de traçar análises a partir de pontos de vistas diferentes daqueles que estamos acostumados. 

De uma maneira ou de outra, as artes marciais japonesas estão todas interligadas, nem que seja pela cultura, filosofia ou idioma comum.

Para concluir, resta-me apenas dizer que tudo na vida são "escolhas"... Mas sejamos minimamente coerentes: os mesmos mestres que usam as faixas em farrapos, não usam o Karategi em farrapos... portanto há uma contradição visível a respeito da manutenção do equipamento pessoal. 

Não é por apresentarmos uma faixa em péssimas condições de manutenção que o nosso estatuto de "mestre" eleva-se sobre os demais. Muito pelo contrário. 

Cabe, por isso, a cada um de vós a escolha da resposta para esta contradição. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

30. Especialista em Karate?



Vou hoje falar sobre outro conceito japonês que às vezes é mal interpretado. Este é o caso do sufixo japonês colocado após o nome de alguma via marcial.



Karateka e praticante de Karate são dois conceitos que aparentemente indicam a mesma coisa e são facilmente confundidos em publicações, sites, etc.. Mas, na realidade há uma diferença abismal entre ambos.


Não sei se notaram, mas o sufixo KA 家 após a palavra Karate identifica - a nível de idioma japonês - alguém que seja um "especialista". 

Portanto, quando dizemos que alguém é um Karateka 空手家 estamos literalmente a nos referir a uma pessoa que é "especialista em Karate".


Note-se que este sufixo não é exclusivo o Karate... Também é visto em outras vias marciais, tais como: Jūdō, Kendō, Aikidō, Kyūdō, Kobudō, etc.. 



A questão agora é: o que é um especialista em Karate?



Por definição, "Especialista é uma pessoa que se dedica a um ramo de determinada ciência, técnica ou arte e sobre o qual tem profundo conhecimento".



Assim, apenas para reflexão, somos Karateka (especialistas em Karate) ou meros praticantes de Karate?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

29. 押忍 Oss, Ôs, Ossi ou Osu?


Nunca um assunto veio em tão boa hora como este!
Depois dos posts a respeito de transcrição fonética e os erros - desde associações infelizes de ideias a erros mesmo grosseiros de falta de pesquisa - aqui está um exemplo onde tudo isso pode ser visto!
Autores, instrutores, "mestres", senseis (com "s" no final), curiosos etc.. Enfim, "todo mundo" acha que tem algo a dizer sobre o assunto, mas raros são aqueles que acham que deveriam pesquisar e estudar o assunto. antes de publicar opiniões que - na maioria dos casos - são completamente disparatadas.
Alguns afirmam que é uma contração da palavra "Ohayō gozaimasu" ("Bom dia!"), outros dizem que "foi assim que os seus mestres disseram que era" e tantas outras tolices que advém da falta de estudo efetivo... mas NENHUMA destas pessoas - férteis em idéias - parou alguns minutos para pesquisar o assunto em questão. E não pararam para pesquisar ou questionar por puro e duro comodismo! 
Volto a dizer: se uma pessoa não é instrutora, não há qualquer problema quanto a não pesquisar coisa alguma. 
Mas se alguém se entitula "instrutor", "treinador" ou "sensei", não sabe as matérias que deveria dominar e - para colocar a situação ainda mais no fundo do poço - não se dá ao trabalho de pesquisar e tirar dúvidas a respeito do que ensina, então, honestamente, não deveria ter nenhum dos títulos acima mencionados... 
Mas uma coisa é teoria, outra coisa é prática no ensino das vias marciais.
Como já é o costume, então, vamos ver <Significado da expressão e comentários explicativos>, mas desta vez vamos ver ponto a ponto para que não fiquem dúvidas.
1º ponto: Quando escrita em japonês, esta expressão é composta por dois Kanji (ideogramas): 
押忍.
2º ponto: Como os Kanji não oferecem qualquer pista a respeito de como são escritas as palavras usando o nosso alfabeto (pistas cruciais para se poder fazer uma "romanização" ou transcrição fonética oficial japonesa) é necessário saber COMO os ideogramas são escritos em silabários. Portanto, vou passar os Kanji (ideogramas) para Kana (silabários). 
3º ponto: Quando escrita em Kana, esta é composta por dois caracteres: おす ("O" e "SU" respectivamente.
Já fica clara qual é a transcrição fonética correta. OSU.
Mas... (sempre tem um "mas") o que a maioria não sabe (por motivos já mencionados) é que o "u" final das palavras japonesas "geralmente" é mudo (não se pronuncia). 
Ou seja, mesmo que a transcrição fonética correta seja "Osu", pronunciamos "ôs"! 
(^_^) Menos mal, hein?! A "coisa" então não está tão mal, como apontariam alguns!
Assim, ao FALAR dizemos "Oss", "Ôs" (mas NUNCA "Ossi" - esse está mesmo "fora de questão"!)... e escrevemos OSU!
Acredito que agora não restem dúvidas sobre a forma correta desta palavra, tanto escrita quanto falada.
押忍 Osu!
(^_^)

28. Maldita barrinha!


No meu "post" anterior entitulado "Kyū, Mukyū ou Shoshinsha?", alguns leitores podem ter ficado a se perguntar: "Mas que raio de barra é aquela sobre a letra "u"?!"

Pois bem. Para entender essa "barra" faz-se necessária uma rápida introdução aos sistemas de transcrição fonética japoneses (ou processos de "Romanização" das palavras japonesas).

Como é do conhecimento geral, os japoneses escrevem em japonês!

Até aí, não é preciso ser bruxo para constatar o óbvio!

Calma! Se isso fosse assim tão óbvio, não haveria necessidade de ter de explicar a "maldita barra" sobre a vogal "u"... pois todos já saberiam o porquê de utilizá-la.

Continuando... os japoneses escrevem em japonês... utilizando um conjunto de ideogramas   chamados KANJI 漢字 (literalmente "letras chinesas" - originalmente rondam os 60.000 caracteres e um único caracter pode ter de 1 a 52 traços) e dois grupos de silabários chamados KANA 仮名 (atualmente com 48 caracteres cada). 

[Não vou entrar em detalhes porque isso não interessa à maioria dos ocidentais.]

Pois bem. Se eles usam Kanji e Kana para escrever, como é que nós ocidentais representamos  as palavras japonesas usando o nosso alfabeto?

Para 99,99% dos ocidentais, isso faz-se através das transcrições diretas das palavras japonesas que "ouvimos", sem qualquer método oficial que as fundamente.

É aqui que a bagunça, os disparates, os erros, as tretas, as informações dúbias etc. estão generalizados! Porque cada um escreve como "acha que tem de ser", sem se importarem em pesquisar minimamente a fim de que a informação que transmitem sejam fidedignas.
Mas qualquer pessoa que queira transcrever as palavras japonesas utilizando o nosso alfabeto de 26 letras - e seja séria a respeito da informação que quer transmitir - deve optar por algum sistema "OFICIAL" de transcrição fonética japonesa (pois existem alguns).

Para nós - ocidentais - o sistema que melhor se adapta às nossas necessidades é o sistema Hepburn [não me vou prolongar muito porque qualquer pessoa pode fazer uma busca na internet e encontrar TUDO sobre sistemas de romanização - basta que tenha interesse em aprender e fazer uma busca por "Hepburn"]. E por quê? Porque ele transcreve as vogais longas japonesas utilizando um acento chamado "Mácron" - aquela barra em cima da vogal. Vamos ver alguns exemplos de transcrição oficial corretas em se tratando de nomes de estilos de Karate: 剛柔流 - Gōjū-Ryū, 松濤館 - Shōtōkan, 和道流 - Wadō-Ryū, 糸東流 - Shitō-Ryū e, naturalmente, o próprio 空手道 - Karate-dō. Porque TODAS estas palavras apresentam vogais longas quando escritas em japonês. Portanto, para uma "romanização" correta da palavra japonesa deve-se respeitar o que foi escrito originalmente e não "inventar" transcrições particulares.

"E isso é importante?"
Sim, porque - em primeiro lugar - obedece a um sistema "oficial" de transcrição das palavras japonesas usando o nosso alfabeto e não transcrições "ao calhas" que deixam muito a desejar em se tratando de tradução efetiva de palavras, expressões e conceitos. Em segundo lugar, apresenta informação fidedigna para aqueles que buscam o conhecimento fundamentado e pesquisado; e - em terceiro lugar - valida o esforço gasto em aprender com o reconhecimento de uma transcrição correta.

"Mas eu sempre fiz assim..."
Ter "sempre feito assim" não quer dizer que tenha feito certo.

"Mas nos livros do meu estilo é assim que se faz ou é assim que está escrito..."
A grande realidade é que o Instituto Kōdōkan de Jūdō, a Zen Nippon Karate-dō Renmei (JKF) ou qualquer outra entidade de vias marciais nunca foram, não são e possivelmente nunca venham a ser qualquer autoridade a nível linguístico japonês e, portanto, muitas vezes publicam obras sem qualquer fundamento em se tratando de transcrição fonética. E o fazem basicamente porque eles não precisam se preocupar em fazer certo aos olhos ocidentais, porque sendo "japoneses" usam o próprio idioma a nível local. Quanto às obras publicadas no Japão destinada aos "outros", isso já é uma outra história...


Isso serve também para a ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas - citada por um indivíduo para justificar uma transcrição fonética errada. A ABNT nunca foi, não é e possivelmente nunca venha a ser qualquer autoridade a respeito da língua japonesa.


Da mesma forma que não entramos num curso de corte e costura para aprender Karate, não entramos numa escola de Karate para aprender japonês. Se quisermos fundamentar o assunto "idioma japonês" ou "métodos de transcrição fonètica" procuremos as obras da Fundação Japão que é uma autoridade linguística.


Assim, a "madita barrinha" sobre as vogais obedece a um sistema de transcrição fonético oficial da língua japonesa. É a forma oficial e correta de se transcrever as palavras japonesas com o nosso alfabeto.


"Mas o meu teclado não tem esse acento!"
Não há problema! O Mácron pode ser substituido pelo acento circunflexo (" ^ ") sem prejuízo de correção de informação.
空手道 - Karate-Dō ou Karate-Dô.
剛柔流 - Gōjū-Ryū ou Gôjû-Ryû. 
松濤館 - Shōtōkan ou Shôtôkan. 
和道流 - Wadō-Ryū ou Wadô-Ryû. 
糸東流 - Shitō-Ryū ou Shitô-Ryû.

"Mas se eu quiser publicar algo, sou obrigado a usar esse acento?"
Não. Ninguém é obrigado a fazer o que não quer. É só uma questão de apresentar informação correta e verificável. Se alguém quiser apresentar informação definitivamente "não fundamentada", deve estar plenamente consciente das críticas negativas que o seu trabalho possa vir a receber. 


"Mas já há muita coisa escrita no meu estilo e mudar dá muito trabalho."
A questão é: quer continuar a difundir informação errada ou já é hora de colocar informação fundamentada? Não se esqueça de que "o que tem para mudar" foi informação passada de forma errada, sem pesquisa e transmitida como sendo certa. "Mudar da muito trabalho." Sim, dá. Mas foi por pensar assim, por comodismo que as coisas chegaram ao estado que estão.


(^_^)

27. Kyū, Mukyū ou Shoshinsha?


Uma questão que parece não ter solução à vista é a questão sobre a faixa branca ser ou não um Kyū. Por isso, vamos ver a que se refere o termo Kyū e verificar se sua aplicação é ou não válida em se tratando de graduação.
Eu vou dar dois motivos por que a faixa branca NÃO é um Kyū.
Em primeiro lugar - como é o costume - vamos ver o que significa Kyū.
級 "Classe / grau".
On'yomi: Kyū.
Nanori: Shina.
*** Para aqueles que seguem os meus "posts" a mais tempo, podem agora dizer: "Oooooo quêêê?! Este ideograma não tem Kun'yomi?!" Pois! Este ideograma NÃO tem Kun'yomi. ***
No contexto do Karate, Kyū é traduzido como "classe" ou "grau".
Passemos agora aos motivos propriamente ditos!  (^_^)
1º Motivo:
Para explicar este motivo, vou dar um exemplo bastante simples: suponhamos que alguém vai passar de 2º Kyū para 1º Kyū... Qual é a condição indispensável?
Exatamente! Um EXAME! E se a condição indispensável para se obter uma "classe" ou "grau" é um "exame" e uma vez que um faixa branca ainda não fez qualquer exame para usar a referida faixa, naturalmente não recebe qualquer "classe" ou "grau".
2º Motivo (o "melhor" sempre guardamos para o fim) (^_^):
No Japão a faixa branca NÃO é considerada um Kyū. 
Para se referir aos faixas brancas, os japoneses usam dois termos específicos: Mukyū 無級 e Shoshinsha 初心者, "Sem grau" e "Iniciante" respectivamente. Onde:
Mukyū - "Sem grau", "Sem classe".
無 - Mu - Sem, não ter, não haver.
級 - Kyū - Classe, grau.
Shoshinsha - "Pessoa com o espírito inicial (iniciante)".
初 - SHO - Inicial, início. (É o mesmo usado em Shodan.)
心 - SHIN - Espírito.
者 - SHA - Pessoa
Portanto, fica bastante claro que a faixa branca não é Kyū.
(^_^)