domingo, 27 de novembro de 2011

19. Aos autores de livros.


提灯に釣り鐘 
"Chôchin ni tsurigane." 
"You can't tell a book by its cover."
"Não se pode julgar um livro pela capa."

É um provérbio conhecido mundialmente, e aceite por todos, mas será que este provérbio pode ser aplicado à realidade dos livros, sites, artigos publicados a respeito de karate?

Acredito que - ao contrário do que afirma o provérbio acima - podemos, sem sombra de dúvidas, julgar uma obra, um "site", livros ou revista referente ao Karate apenas ao olhar a capa desta publicação.

Gosto particularmente de falar de experiências reais, pois elas são reais (^_^)! 
Por isso vou comentar um caso que ocorreu comigo e que confirma o que eu estou a dizer a respeito de julgar um livro ao olhar a sua capa.

Há alguns anos atrás estava na casa de um organizador de um estágio internacional de Karate a conversar com o mestre japonês que havia vindo para ministrar o estágio. Como o organizador do evento é uma pessoa que tem uma biblioteca particular interessante a respeito de Karate, estávamos a ver alguns livros. De repente o mestre diz: 

- Isto está errado! Apontando para a capa de um dos livros.

Realmente, um dos ideogramas que indicavam o nome do estilo estava mesmo mal escrito, faltava um traço no ideograma.

Para um autor ocidental, um traço a mais ou a menos num ideograma japonês não tem a menor importância.

Mas para uma outra pessoa que tenha mais conhecimento sobre o assunto publicado, a situação será mesmo assim?

É natural esperar que um autor que vá publicar algo sobre karate tenha - no mínimo - conhecimento efetivo sobre a matéria sobre a qual pretende expor o seu conhecimento.
Contudo, o Karate contemporâneo  tem uma história complexa e um vocabulário de palavras japonesas bastante extenso.

Qualquer autor de artigos sobre Karate tem de ter os seguintes aspectos em mente:

1. Utilização (ou não) de ideogramas e silabários japoneses.
Conheço casos de editoras que se recusam a publicar obras com caracteres japoneses. Por isso é importante a qualquer autor verificar previamente com a editora a possibilidade para tal. Decidido pela publicação do artigo/livro com caracteres japoneses, o autor - após revisão - deve certificar-se de que todos os caracteres estão bem escritos.

2 - Trancrição fonética oficial dos ideogramas e silabários japoneses.
Uma coisa é usar os caracteres japoneses, outra é transcrever as palavras japonesas usando o nosso alfabeto de 26 letras. É aqui que mais de 95% do trabalhos publicados mundialmente podem ser colocados no lixo!

Existem sistemas "oficiais" de transcrição fonética japonesa que devem ser utilizados pelos autores para escrever palavras japonesas usando as letras do nosso alfabeto, principalmente se o trabalho destina-se a ser lido por muitas outras pessoas, cujo conhecimento pode ser menor ou maior do que o conhecimento do autor da referida obra. 

Contudo, alguns autores, no impulso de ver difundido o seu “conhecimento”, não se dão ao trabalho de verificar se a informação que está a publicar está correta e difundem aquilo que "julgam" estar correto, o que poderá ou não ser válido em nível de transmissão do conhecimento. E é desta forma que os erros vão passando de geração em geração. 

É tão básico como: "aquilo que não está certo, está errado"... é como o próprio Karate: ou se sabe ou não se sabe. 

E antes que alguém já comece a invertar desculpas... Não! Não há desculpa para a falta de pesquisa em se tratando de publicação de trabalhos! Se não se sabe, não se faz!

 No mundo marcial são incontáveis as fontes... mas nem todas são de confiança e muitas apresentam informações muitíssimo questionáveis. Apenas procurando, perguntando e questionando é que podemos realmente "aprender" as artes que praticamos. 

Copiar faz bem nos primeiros passos de qualquer arte, mas não podemos nos acomodar e manter esta postura se quisermos realmente saber a arte que praticamos ou ensinamos.

Autores sérios fazem trabalhos sérios, o resto... não passa disto mesmo: resto!



Assim sendo, todos os autores (e autoras) têm apenas três escolhas possíveis:



1. Usar um sistema de romanização (transcrição) oficial.

2. Advertir que o autor(a) não irá utilizar intencionalmente nenhum sistema de romanização (de transcrição fonética).

3. Escrever de qualquer jeito as palavras japonesas sem uma pesquisa prévia ou advertência aos leitores sobre a falta de um processo de transcrição fonética.

Resultados de acordo com a escolha feita:

Primeira escolha: Este é considerado um bom trabalho porque o autor fez um esforço e apresentou informação correta aos leitores. Independente da qualidade geral do trabalho, o autor definitivamente fez uma pesquisa válida e colocou-a no seu trabalho. É o tipo de esforço que é apreciado por todos que entendem o valor do "esforço" pessoal.

Segunda escolha: Neste caso o autor escreve no início do seu trabalho a seguinte advertência aos leitores: "Intencionalmente, nenhum sistema de romanização da escrita japonesa foi utilizado”. Isto torna o trabalho aceitável, porque o autor informa que não irá utilizar nenhum sistema de romanização (por alguma razão). 

O autor pode não estar muito seguro sobre a utilização de um método de romanização ou também pode não ser culpa do autor a não inclusão das transcrições fonéticas: alguns editores simplesmente não aceitam a inserção de "macron" ou escrita japonesa nos títulos que irão publicar, fazendo com que o valor da obra do autor e o conhecimento nela contido seja diminuído. 

Nesta categoria nós encontramos, por exemplo, e Do

A transcrição fonética japonesa correta é "", enquanto que a forma mais conhecida é "Do". 
Vamos ver este caso em particular a fim de dar uma visão geral a respeito do assunto.

Em ideogramas, a palavra Dō é escrita da seguinte maneira: 道.

Mas os ideogramas não dão a menor referência a respeito de como deve ser a transcrição fonética, assim, devemos escrever a mesma palavra usando os silabários japoneses. neste caso, a palavra Dō é escrita da seguinte maneira: どう

Agora sim!, podemos decompor a palavra e saber como transcrevê-la com o nosso alfabeto.

Decompondo:
Do
u

DOU?! Sim! Existem sistemas de transcrição fonética que fazem a transcrição desta maneira. Contudo, no sistema Hepburn de transcrição, aquele "u" excedente (usado para indicar vogal longa) passa a ser indicado através de uma barra (ou acento circunflexo) sobre a vogal anterior.

Consequentemente:
Dou = Dō "Via, Caminho".

Se não tivesse uma forma de identificar as vogais longas, a tradução da palavra DO (sem "acentuação") significa " solo, terra, graus, ocorrência, tempo" etc.. (^_^)


A pergunta agora é: "E como é que eu sei isso?"
Se não quiser aprender japonês, basta que pergunte para alguém que saiba.
Para que servem os estágios com mestres japoneses? Exatamente: para tirar dúvidas!

Voltando ao assunto... Usando uma linha de advertência, o autor diz que - mesmo sabendo a forma correta - a fim de alcançar a todos os níveis de conhecimento dos leitores, prefere utilizar a forma mais conhecida. O que faz com que o trabalho esteja correto. 

Alguém perguntaria: "A romanização está correta?" 
A resposta é "Não".

Mas "O trabalho está tecnicamente correto?" 
A resposta é "Sim".

Terceira escolha: Independente da qualidade do trabalho (boa ou má) este trabalho será sempre considerado "mau", porque induz o leitor a acreditar que as palavras japonesas estão corretamente escritas quando, de fato, elas não estão.

Parece, à primeira vista, que o autor não se deu ao trabalho de saber a forma correta de apresentar as suas idéias aos leitores e não levou muito a sério o seu próprio trabalho.

Basicamente, para qualquer pessoa que sabe o que é "esforço", este é um daqueles  trabalhos que pode ir diretamente para o lixo.

Assim sendo, pode-se com certeza julgar um livro pela capa em se tratando de Karate, porque um livro atinge todas as camadas e graus de conhecimento humano. Pode atingir um público que saibe menos, tanto ou mais do que nós.

Assim, meus amigos, muita atenção com o que publicam!

18. O que é ser Shodan?

Ah! A primeira faixa preta![1]

Este é um assunto bastante engraçado, quero dizer, a falta de compreensão a respeito do mesmo no mundo do Karatedô faz com que este assunto assuma proporções inimagináveis.

Fábulas, contos, misticismos sobre atingir a tão cobiçada faixa estão amplamente difundidos pelos quatro cantos do planeta. 

Coloca-se, pois, a seguinte questão: será que a primeira faixa preta merece tal atenção?

Na realidade, não! 

Mas até chegar a esta conclusão, é necessário "entender" o assunto antes de difundir disparates. 

Em primeiro lugar, vamos entender o que significa a palavra Shodan 初段.

Para os instrutores de Karate ocidentais, não para "todos", mas para aproximadamente 99,99% destes, a primeira faixa preta representa um "ritual de passagem" de um aprendiz com faixa colorida para o mundo dos "senseis" (coloquei "s" no final da palavra propositadamente - sabendo que palavras japonesas não têm plural) !

[Essa história de qualquer um que obtenha uma faixa preta ser "automaticamente" instrutor também é um outro assunto que deveria ser amplamente debatido. Mas não vai ser neste artigo.]

Este "ritual de passagem" exige ao 1º Kyû que este saiba tudo (ou quase tudo) a respeito da parte técnica da arte que pratica, analisada quase à perfeição. [Atenção às palavras "parte técnica", pois a "parte teórica" nunca é verificada com o mesmo grau de exigência... por que será?] Após um exame "tecnicamente" exaustivo o novo faixa preta é admitido no mundo dos "senseis".

Isso tudo seria válido se correspondesse à realidade do ensino do Karate. Mas não é.

A palavra japonesa "Shodan 初段" significa literalmente "Nivel inicial", onde:

初 SHO - Início, principio.
段 DAN - Nível.

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que a tradução aponta para o que deve ser tal graduação. "Shodan 初段" significa "Nível inicial" e não "1º Dan".

O que significa, então, "nível inicial"?

Significa que o praticante está apto para começar no estilo de Karatedô que escolheu.

Mas o que significa "estar apto" em se tratando de Karate?

"Estar apto" - neste caso - significa que detém os conhecimentos elementares que o habilitam a começar numa prática continuada do estilo de Karate que escolheu.

É justamente isso que os ocidentais não são capazes de entender, isto é, "começar" no Karate vindo de um período preparatório (fase de faixas coloridas) é um processo gradual contínuo e não um "ritual de passagem". O 1º Kyû é reconhecido como tendo os conhecimentos BÁSICOS necessários para "iniciar a sua prática". Por isso que a primeira faixa preta chama-se "Nível inicial". 

No Japão, a primeira faixa preta não têm esse grau de importância que podemos ver no ocidente, por outro lado, as seguintes graduações de Dan japoneses são cada vez mais exigentes - sem exceção! O exame para 2º Dan é muito exigente, o exame para 3º Dan é muitíssimo exigente e assim por diante. 

Esta diferença de importância da faixa preta faz com que se veja "um início como um fim", isto é, quando na realidade a primeira faixa preta deveria ser vista como um "início do Karate como arte marcial (Shodan)", passa a ser "um fim a ser atingido (1º Dan)". 
Notaram a diferença entre "Shodan" e "1º Dan"? Enquanto que Shodan é um "início", "1º Dan" é um fim.

A primeira faixa preta tem a mesma importãncia que a faixa castanha (marrom), tem a mesma importãncia que a faixa azul, tem a mesma importancia que... ... ... (nota: a colocação de reticências repetidas está ortograficamente errada, mas servem ao meu propósito de mostrar que ela é tão importante quanto qualquer outra faixa que o praticante atingiu anteriormente - porque todas as faixas que o praticante conseguiu ao longo da sua vida de treino marcial são a sua própria expressão em "Karate" - desde o primeiro dia que pisou dentro de um Dôjô)  porque as graduações como evolução gradual são algo natural.

Assim sendo, é necessário que todos os instrutores entendam verdadeiramente os conceitos mais elementares do Karate - neste caso, o que significa o termo Shodan - e que tenham sempre em mente que o Karate, como a própria vida, segue o seu curso natural.  As passagens do primeiro dia de vida, para fase de bebê, para fase adolescente, para fase adulta, para fase idosa e, por fim, para morte seguem o curso natural. Da mesma forma, as fases de Mudansha para Yûdansha seguem o mesmo curso natural. 

Portanto, esse "ritual de transformação daqueles que não sabiam nada para o mundo dos senseis" é um processo irracional. 

"Mas o meu mestre disse que..." alguns podem agora estar a argumentar.

O cérebro não serve apenas para separar as orelhas! Ele também é usado para uma atividade muito interessante: PENSAR!

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[1] Permitam-me uma rápida consideração a respeito de cinto ou faixa
Aqui em Portugal, ao segmento de tecido utilizado para fechar o Karatedô-gi chama-se "cinto". No Brasil chama-se "faixa". Usando um raciocínio bastante lógico, "cinto" serve para segurar as calças - o que não é o caso do segmento em questão, pois as "calças" do Karatedô-gi, conhecidas por Shitabaki possuem um cordão para este fim, chamado SHITABAKI NO HIMO 下履の紐Por outro lado, as roupas tradicionais japonesas eram fechadas com uma faixa. Assim, acho que faz mais sentido usar o termo faixa do que usar o termo cinto e, por isso, a partir de agora passo a referir-me a esta peça do karatedô-gi como "faixa", mesmo que em Portugal o termo seja "cinto".

sábado, 26 de novembro de 2011

17. 道場訓 DŌJŌKUN

Todo praticante de Karate, pelo menos uma vez na sua vida marcial, já se deparou com uma "coisa" chamada Dōjōkun. Mas o que isso significa realmente? Qual é a idéia por trás de cada Dōjōkun?
Pois bem. Quando explico assuntos relacionados com a cultura, artes marciais  ou idioma japonês, eu gosto de apresentar a sua grafia e traduções possíveis a fim de que não sobrem dúvidas a respeito do que o termo se refere... E não vai ser hoje que vou mudar o meu modo de ser.
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Vamos, então, ao que interessa.
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道場訓 Dōjōkun significa literalmente "As instruções do local do Caminho (filosófico)", onde:
道 DŌ - Caminho, Via (no sentido filosófico). (1)
場 JŌ - Local, lugar.
訓 KUN - Instruções.
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Como todos nós já estamos acostumados a não traduzir a palavra Dōjō, porque sabemos onde é (^_^), assim sendo, por Dōjōkun entenda-se "As instruções do Dōjō".
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O Dōjōkun são as instruções, as directivas padrão de determinados estilos de artes marciais deixadas pelos seus respectivos mestres como um guia de comportamento dos seus praticantes.
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Mas a respeito do Dōjōkun, o que acontece na vida real e nas escolas ocidentais? 
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Geralmente,  um 1º Kyū ou Shodan... às vezes o próprio instrutor, profere uns grunhidos a "imitar japonês", despeja lá um monte de coisas que a gente não entende, saudamos. E... já está! 

Em outros casos, espelho da nossa acomodação, malandragem, preguiça mental e aplicação efetiva da "lei do menor esforço", conceitos japoneses inteiros com significados sólidos são reduzidos à palavras únicas que não representam nem de longe os conceitos originais a que dizem respeito. Resumindo: há uma bagunça generalizada!

Os ocidentais tendem a apresentar uma interpretação "muito particular" do Dōjōkun com dois erros sérios:

a) A obrigação de "decorar" sem entender o DŌJŌKUN.

Aos alunos mais antigos é pedido que "decorem" o Dōjōkun [道場訓] e que o repitam no começo de cada aula. Como decorar uma seqüência de palavras japonesas e depois ter de repeti-las é uma tarefa "ingrata", muitas vezes acaba-se por ouvir um monte de grunhidos sem sentido que tentam imitar a pronúncia japonesa.

Para resolver este problema, basta que se entenda o que está a falar e tudo fica mais fácil.

b) A "simplificação" do DŌJŌKUN para cinco palavras.

No ocidente, o Dōjōkun mais conhecido, que é o do SHŌTŌKAN 松濤館, foi "simplificado" para cinco palavras: CARÁTER, SINCERIDADE, ESFORÇO, ETIQUETA e CONTROLE... Isto é uma tolice, porque em japonês também existem estas palavras... JINKAKU [人格], SEI-I [誠意], DORYOKU [努力], REIGI [礼儀] e JISHUKU [自粛]... porém, o DŌJŌKUN [道場訓] correto apresenta FRASES com significado sólido, por isso esta simplificação não é "muito bem-vinda" nos círculos tradicionais.
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Vou apresentar, portanto, alguns Dōjōkun nas suas formas originais japonesas, suas transcrições fonéticas e traduções, para aqueles que estão a começar na arte tenham informação fundamentada e não opiniões especulativas que muitas vezes estão erradas.
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松濤館の道場訓
一、人格完成に努める事。
一、誠の道を守る事。
一、努力の精神を養う事。
一、礼儀を重んずる事。
一、血気の勇を戒むる事。
Shōtōkan no Dōjōkun
Hitotsu, jinkaku kansei ni tsutomeru koto.
Hitotsu, makoto no michi o mamoru koto.
Hitotsu, doryoku no seishin o yashinau koto.
Hitotsu, reigi o omonzuru koto.
Hitotsu, kekki no yū o imashimuru koto.
As instruções do Dōjō Shōtōkan.
Importante, esforçar-se para desenvolver o caráter.
Importante, defender o caminho da verdade.
Importante, nutrir o espírito de esforço.
Importante, considerar importante a cortesia.
Importante, proibir o ímpeto violento.
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剛柔会の道場訓
一、剛柔の道を学ぶを以て誇りとすべし。
一、礼儀を正しくすべし。
一、質実剛健を旨とすべし。
一、団結互助の精神を養うべし
一、日本古来の伝統たる尚武の気風を尊重すべし。
以上
Gōjūkai no Dōjōkun.
Hitotsu, Gōjū no michi wo manabu wo motte hokori to subeshi.
Hitotsu, reigi wo tadashiku subeshi.
Hitotsu, shitsujitsu gōken wo mune to subeshi.
Hitotsu, danketsu gojo no seishin wo yashinau beshi.
Hitotsu, Nippon korai no dentō taru shōbu no kifū wo sonchō subeshi.
Ijō.
As instruções do Dōjō Gōjūkai.
Importante, ter orgulho por estudar a "Via do Gōjū".
Importante, ser educado / cortês.
Importante, esforçar-se para desenvolver a simplicidade e o vigor físico.
Importante, nutrir o espírito de união e convívio (fraternidade).
Importante, respeitar a ética e as tradições guerreiras do antigo Japão.
Isto é tudo!

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和道流の道場訓

一、礼儀を重んじ
一、真剣身に徹し
一、心身を鍛え技を錬り
一、人格完成に務め
一、和の道を究めよ
Wadō-ryū no Dōjōkun.
Hitotsu, reigi wo omonji.
Hitotsu, shinken-mi ni teshi.
Hitotsu, shinshin wo kitae waza wo neri.
Hitotsu, jinkaku kansei ni tsutome.
Hitotsu, Wa no michi wo kiwame yo.
As instruções do Dōjō Wadō-ryū. 
Importante, considerar a cortesia importante.
Importante, ser sério em tudo que fizer.
Importante, treine com o corpo e a alma e refine constantemente as técnicas.
Importante, esforce-se para desenvolver o caráter.
Importante, estude (pesquise) o Caminho da paz.
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糸東流の道場訓
一、初心忘れるなかれ
一、礼儀怠るなかれ
一、努力怠るなかれ
一、常識かけるなかれ
一、和乱すなかれ
Shitō-ryū no Dōjōkun.
Hitotsu, shoshin wasureru nakare.
Hitotsu, reigi okotaru nakare.
Hitotsu, doryoku okotaru nakare.
Hitotsu, jôshiki kakeru nakare.
Hitotsu, wa midasu nakare.
As instruções do Dōjō Shitō-ryū.
Importante, não esqueça do espírito de principiante.
Importante, não negligencie a etiqueta.
Importante, não negligencie o esforço.
Importante, não perca o senso comum.
Importante, não perturbe a paz.
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沖縄剛柔流空手道協会の道場訓
一、謙虚にして礼儀を重んぜよ
一、体力に応じて適度に修行せよ
一、真剣に工夫研究せよ
一、沈着平靜にして敏捷自在なれ
一、摂生を重んぜよ
一、質素な生活をせよ
一、慢心せぬ事
一、撓まず屈せず修行を永続せよ
Okinawa Gōjū-ryū Karate-dō Kyōkai no Dōjōkun
Hitotsu, kenkyō ni shite reigi wo omon ze yo.
Hitotsu, tairyoku ni ōjite tekido ni shūgyō se yo.
Hitotsu, shinken ni kōfukenkyū se yo.
Hitotsu, chinchaku heisei ni shite nare.
Hitotsu, sessei wo omon ze yo.
Hitotsu, shisso na seikatsu wo se yo.
Hitotsu, manshin se nu koto.
Hitotsu, tawamazu kagasezu shūgyō wo eizoku se yo.
As instruções do Dōjō da Associação de Gōjū-ryū Karate-dō de Okinawa.
Importante, ser humilde e considerar a cortesia importante.
Importante, no treino aplicar a força física de forma moderada.
Importante, pesquisar e treinar de forma séria.
Importante, use a rapidez à vontade, mas de forma calma e tranquila
Importante, considere a higiene importante.
Importante, viva uma vida modesta (simples).
Importante, não seja orgulhoso.
Importante, continue a prática sem fraquejar ou desistir.
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極真会館の道場訓
一、吾々は心身を錬磨し確固不抜の心技を極めること
一、吾々は武の神髄を極め機に発し感に敏なること
一、吾々は質実剛健を似て克己の精神を涵養すること
一、吾々は礼節を重んじ長上を敬し粗暴の振る舞いを慎むこと
一、吾々は神仏を尊び謙譲の美徳を忘れざること
一、吾々は智性と体力とを向上させ事に臨んで過たざること
一、吾々は生涯の修行を空手の道に通じ極真の道を全うすること
Kyokushin-kaikan  no Dōjōkun. 

Hitotsu, wareware wa, shinshin o renmashi, kakko fubatsu no shingi o kiwameru koto.
Hitotsu, wareware wa, bu no shinzui o kiwame, ki ni hasshi, kan ni bin naru koto.
Hitotsu, wareware wa, shitsujitsu gōken o motte, kokki no seishin o kan'yō suru koto.
Hitotsu, wareware wa, reisetsu o omonji, chōjō o keishi, sobō no furumai o tsutsushimu koto.
Hitotsu, wareware wa, shinbutsu o totobi, kenjō no bitoku o wasurezaru koto.
Hitotsu, wareware wa, chisei to tairyoku to o kōjōsase koto ni nozonde ayamatazaru koto.
Hitotsu, wareware wa, shōgai no shūgyō o karate no michi ni tsuji, Kyokushin no michi o mattou suru koto.

As instruções do Dōjō Kyokushin-kaikan. (2)
Importante, dedicaremos todo o nosso esforço ao desenvolvimento espiritual, intelectual e físico.
Importante, manter-nos-emos atentos na busca do verdadeiro Caminho da Arte Marcial, assim como nos ensinamentos dos nossos Mestres.
Importante, buscaremos com grande vigor, cultivar um espírito de abnegação.
Importante, observaremos as regras da cortesia, do respeito aos nossos superiores e abster-nos-emos da violência.
Importante, nunca esqueceremos a verdadeira virtude da humildade.aImportante, Os nossos únicos desejos serão buscar a sabedoria e a força física e mental.
Importante, os nossos únicos desejos serão buscar a sabedoria e a força física e mental.
Importante, através do Kyokushin, buscuraremos o completo e verdadeiro significado do Caminho.
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Seria mais fácil para todos, ao invés de recitar uma coisa sobre a qual não se entende muito, colocar o Dōjōkun em um quadro onde pudesse ser lido por todos.
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1) Sobre a "Via", o "Caminho" "Filosófico" há muito que se diga, mas não é meu objetivo abordar este assunto no momento. 
2) Não verifiquei tradução.

16. 質疑応答 FAQ

Nesta entrada vou responder à questões frequentes que tenho encontrado no mundo das artes marciais japonesas.

01. O que significa SHINGITAI 心技体?
[掛物]* - Esta era uma expressão muito conheciada antigamente e estava presente,  dentro dos Dôjô de escolas "-Jutsu" (escolas bélicas).
É uma expressão que apresenta - de maior ao menor grau de importãncia - a composição de um guerreiro, ou seja, aquilo que realmente importa num guerreiro.
A sua tradução é  "Espírito, Técnica e Condicionamento Físico" respectivamente. Onde:
心 SHIN - Espírito.
技 GI - Técnica.
体 TAI - Corpo.
Diz-se que estaria dividido numa proporção de 50% / 30% / 20%. Isto é, 50% do treino era orientado para o fortalecimento espiritual, 30% do treino era orientado para o aprimoramento das técnicas e 20% do treino era orientado para o condicionamento físico.
Estudos indicam que estas proporções variavam levemente de escola para escola. O que  era invariável era a importância de cada aspecto, Sendo sempre o "aspecto espiritual" o mais importante.

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02. O que significa BUNBU ICHI 文武一?
[掛物] Outro aspecto do treino dos guerreiros feudais, mais exactamente dos Samurai, era a expressão Bunbu ichi, onde:
文 BUN - Literatura. 
武 BU - Militarismo.
一 ICHI - O número um, nº 1.
Traduzindo literalmente significa "Literatura e Militarismo são uma única coisa".
Basicamente equivale à expressão ocidental "A pena e a espada em comum acordo".
Mas na realidade, este conceito vai um pouco mais longe.
Bunbu Ichi significa que "teoria e prática devem ser feitas na mesma proporção".
Infelizmente, no ensino marcial contemporâneo, existem instrutores que afirmam que "estudar Karate não importa, o que importa é combater". O que estes instrutores não vêem é o óbvio diante dos seus narizes. 
Se tradicionalmente a teoria e a prática devem ser treinadas como se fossem uma única coisa, então, o instrutore que só está interessado na parte prática do Karate só sabe 50% do que deveria ser Karate. E se não sabe 100% de uma matéria que se propõe a ensinar, está - de facto -  em posição de "ensinar" honestamente?
Honestamente? Não! Porque - dado o alcance do seu conhecimento - não é capaz de responder ou tem poder de argumentação diante de questões literárias a respeito da arte que, como instrutor, deveria dominar a 100%.
Assim, para felicidade de determinados instrutores, onde só se justifica a prática do Karate e o "estudo" da arte está fora de questão, conceitos teóricos como "Bunbu Ichi" não foram muito difundidos aqui no ocidente; razão pela qual estes mesmos instrutores ainda podem dizer coisas disparatadas tal como: "karate só tem a ver com suar o karate-gi".... 
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03. O que significa IKKEN HISSATSU 一拳必殺?
Esta expressão utilizadas nas escolas de combate corpo a corpo desarmadas é recente e tem origem em uma outra expressão homógrafa (no ocidente) das escolas de Kenjutsu (antiga arte de esgrima japonesa).
A expressão original era: Ikken Hissatsu 一剣必殺 (com ideogramas diferentes), cuja tradução era: "Uma espada inevitavelmente mata".
A nova expressão - para conferir o aspecto marcial da arte praticada - Ikken Hissatsu 一拳必殺 agora é traduzida como "Um punho certamente mata". "Punho" neste caso tem a conotação de "ataque".
Existe ainda uma outra variação - também recente - desta expressão. É a conhecida Ikken Issatsu 一拳一殺. Aqui com um aspecto ainda mais "mortal", observável pela tradução dos ideogramas: "Um ataque, uma morte".
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04. O que significa SEIRYOKU ZEN'YŌ 精力善用?
[掛物] Esta é uma das duas máximas do Jûdô do Instituto Kôdôkan. Literalmente significa "Melhor aplicação da força física". 
Mas, na realidade, esta expressão é uma forma abreviada da expressão original: SEIRYOKU SAIZEN KATSUYŌ 精力最善活用 que significa literalmente "Aplicação optimal da força física". Em regra geral, nos dias de hoje, encontra-se a forma abreviada pendurada nas paredes do Dôjô de Jûdô - mais exactamente à volta da fotografia de Kanô Jigorô Sensei.
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05. O que significa JITA KYŌEI 自他共栄?
[掛物] Esta é a segunda máxima do Jûdô do Instituto Kôdôkan. Literalmente significa "Prosperidade mútua entre si e os outros".
Mas, a exemplo da pergunta anterior, esta expressão também é uma forma abreviada da expressão original: JITA YÛWA KYŌEI 自他融和共栄 que significa "Prosperidade mútua e harmonia entre si e os outros". Em regra geral, nos dias de hoje, encontra-se a forma abreviada pendurada nas paredes do Dôjô de Jûdô - mais exactamente à volta da fotografia de Kanô Jigorô Sensei.
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06. O que significa KARATE MUSENTE 空手無先手?
[掛物] Literalmente, "Em Karate não há ataque preemptivo.", ou seja, "Em Karate não se ataca primeiro". Isto significa que não se deve usar o Karate para ações ofensivas, mas para autodefesa. Esta expressão não é muito conhecida... atualmente, com a expansão do Shôtôkan, a expressão mais conhecida é: KARATE NI SENTE NASHI 空手に先手無し - com a mesma tradução.
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07. O que significa MUGEN KYŪDŌ 無限究道?
[掛物] Literalmente, "A Via da pesquisa nunca tem fim". 
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(*) Sempre que houver a palavra [掛物] "KAKEMONO" no começo de uma explicação, isto significa que este conceito era utilizado em quadros (pergaminhos) pendurados nas paredes do Dôjô.

15. Exercícios Suplementares.

Em Karate, especialmente no Gôjû-ryû, existe uma série de exercícios chamados Hojo-Undô  

補助運動. Traduzido literalmente significa "Exercícios suplementares". Onde:


補助 Hojo - Suplementar, auxiliar.

運動 Undô - Exercício(s).



Nestes exercícios são utilizados uma série de equipamentos específicos.
A seguir mostro os ideogramas e representações de equipamentos mais conhecidos.
Entre eles:



Jarros com areia.


Makiwara.


Martelo de pedra.


Caixa de areia.


Tamanco de ferro.


Literalmente: "Equipamento para enrolar para cima".


Pesos.


Literalmente: "Círculo de força metálico".


Literalmente: "Grilhões de pedra".


Halteres.



Bambus enrolados.

14. Graduações Japonesas.

Apenas por curiosidade, aqui estão as graduações japonesas.
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No desenho acima, na linha superior estão os cintos/faixas masculinas e na linha inferior estão cintos/faixas femininas.
OBI - CINTOS (FAIXAS)
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4級以下・・・白帯(男女共用)
Yonkyū ika...Shiro-obi (Danjo kyōyō)
Até 4º Kyū (homens e mulheres) usam cintos BRANCOS
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1級から3級・・・・・・・茶帯
Ikkyū kara san-kyū ... Cha(iro)obi
Do 3º ao 1º Kyū usam cinto CASTANHOS
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初段から5段・・・・・・・黒帯
Shodan kara godan ... Kuro-obi
De Shodan a 5º DAN usam cinto PRETO.
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6段から8段・紅白のだんだら帯
Rokudan kara hachidan - Kōhaku no dandara obi
Do 6º ao 8º DAN usam cinto VERMELHO/BRANCO.
(6段以上黒帯をしめても良い) 
(Rokudan ijō kuro-obi o shimete mo ii)
(6º, 7º e 8º DAN podem usar cintos PRETOS.)
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9段・10段・・・・・・・赤帯
Kudan - Jūdan... Aka-obi
9º e 10º DAN usam cintos vermelhos.
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少年部1級から3級・・・・紫帯
Shōnen-bu ikkyū kara san-kyū ... Murasaki-obi
Crianças: do 3º ao 1º Kyū usam cinto roxo (púrpura).
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女子・・・・中央に白線がある帯
Joshi ... Chūō ni hakusen ga aru obi
Senhoras/raparigas: há uma listra branca que percorre toda a extensão do cinto. 
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Antigamente, o Instituto Kōdōkan atribuia "identificadores de Dan", que eram colocados em uma das extremidades dos cintos/faixas pretas para indicar o Dan do praticante.
Este sistema já não é usado nos dias de hoje, mas, como outra curiosidade, estes são indicados no desenho a seguir.
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Na parte superior estão representados os identificadores para Shodan, 2º e 3º Dan.
Na parte inferior estão representados os identificadores para 4º, 5º e 6º Dan.
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No Brasil, por um certo tempo, os Mudansha (cintos/faixas coloridas) de Jūdō apresentavam também o seguinte identificador de Kyū ( este também já não é utilizado nos dias de hoje):
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Quanto ao sistema Kawaishi de cintos/faixas coloridas usado no ocidente, diz-se ter sido criado por Kawaishi Mikonosuke 川石酒造之助 para incentivar os ocidentais - que não aguentavam ficar sem graduar ou ficar com um cinto/faixa da mesma cor por muito tempo -  a persistirem nos treinos - oferecendo, então, um maior leque de "incentivos" (mais cores) a ser atingidos... (!?)
Assim sendo, neste sistema "para ocidentais verem", as cores passaram a ser as seguintes:
- Branco
- Amarelo
- Laranja
- Verde
- Azul
- Castanho 
- Preto
E umas tantas outras variações de cores... também utilizadas com o mesmo fim.


(^_^)