sexta-feira, 25 de novembro de 2011

12. E se...

*** Nota: Esta entrada no meu blog serve apenas para que eu lance idéias ao ar... ***


1. E se houvesse uma 空手道文化選手権大会 "Competição Cultural sobre Karate-dô"?

Se existem competições para medir o grau técnico de execução dos Kata, de perícia em Kumite, por que não uma "avaliação de conhecimento teórico efetivo" a respeito do karate-dô?
Já estou a ver um pavilhão cheio de espectadores... os competidores alinhados para responderem a 10 perguntas sobre conhecimento geral sobre o estilo de Karate que praticam, obedecendo aos mesmos critérios estabelecidos para os outro tipos de competição.
Será que existiriam tantos competidores como existem para as outras formas de competições? Será que chegariam a existir competidores? (^_^)

11. Arte Marcial ou Desporto?

Eis um assunto que tem dividido inúmeros instrutores de Karate! 
O Karate, afinal, é uma "Arte Marcial" ou um "Desporto de Combate"?
Para começar o meu comentário sobre esta questão, é necessário que sejamos capazes de entender alguns conceitos básicos.
Em primeiro lugar, o que é "Arte Marcial"?
Sem perder tempo em divagações filosóficas, afirmo que existe dois tipos de Artes Marciais:
1. Artes Marciais "ocidentais"
2. Artes Marciais "orientais"
E ambas apresentam conceitos completamente diferentes!
É justamente aqui que os instrutores perdem-se em discussões um tanto sem sentido porque não conseguem separar uma e outra Arte em particular, atirando ambas definições "no mesmo saco" como se tudo fosse uma coisa só.
Vamos então ver ambos os conceitos e tirar as nossas próprias conclusões.


ARTES MARCIAIS OCIDENTAIS.
O nome vem do Deus romano MARTE que era o Deus da Guerra. Tudo referido a combate, militarismo, guerra, campo de batalha, confrontos... ou seja, "belicismo" era tudo com ele mesmo!


ARTES MARCIAIS ORIENTAIS.
"Artes Marciais" para o povo oriental é originalmente expresso através dos seguintes ideogramas 武術 (lêem-se estes dois ideogramas WÛSHÙ em Chinês, MUSUL em Coreano e BUJUTSU em japonês). Traduzindo literalmente os dois ideogramas, este significam "Artes Militares" (em qualquer um dos três idiomas mencionados).

Mas o que significa "Militarismo" no conceito oriental?

Temos então que decompor o ideograma 武 wû / mu / bu - "Militarismo".
O ideograma 武 está dividido em dois outros ideogramas (transcrições em Chinês, Coreano e Japonês respectivamente):


戈 - Ge / gwa / ka - Alabardas, machados, armas.
止 - Zhî / ji / shi - Parar.

Basta, então, adicionar o segundo ideograma 術 shù / sul / jutsu - "Arte" - para termos a "idéia" do que "Artes Marciais" significam para o povo oriental. Ou seja, por "arte militar" os orientais entendem "uma forma de para as armas dos inimigos" ou "uma forma de parar um combate ou hostilidades".

Conceitos completamente diferente, não?

Bem, não vou continuar a "bater no ceguinho", pois qualquer um já pode imaginar alguns conceitos associados às "Artes Marciais" e ver que a coisa não é apenas uma questão de "combate e porrada" simplesmente (no caso do Deus Marte), mas uma questão de evitar o combate e manter a paz na sociedade - no contexto oriental... 
Assim sendo, ser versado no diplomacia / diálogo e possuir um poder "militar" superior através do treino da arte de combater também poderia assegurar tal tranquilidade social. 

Sendo específico no caso do Karate, este sendo uma das artes marciais orientais, o conceito a ser aplicado deveria ser - consequentemente - "Arte Marcial Oriental", que visa evitar o combate ao máximo, mas estando preparado para usar o poder bélico para manter a paz social. 

Estes erros de interpretação de conceitos marciais são amplamente difundidos através de autores que têm até um certo grau de notoriedade, mas que dificultam a real compreensão do assunto em questão. 

Prosseguindo... Numa segunda fase deste mesmo assunto, novamente, é necessário entender o contexto de desenvolvimento histórico das artes marciais japonesas (o Karate incluído) no caminho da sua evolução natural.

"Após a Restauração Meiji (Meiji Ishin 明治維新 - 1868) o conteúdo das artes marciais mudou enormemente, refletindo o fato de que elas não mais deveriam ser utilizadas em combate e que já não eram de treino exclusivo da classe guerreira. Refletindo esta nova circunstância, o Bujutsu 武術 foi substituido pelo termo Budô 武道, implicando que deveria ser treinado mais sob princípios espirituais do que para o combate.
(...)
Depois da Segunda Guerra Mundial, houve a necessidade de modificar certas visões das artes marciais e (mudar) a ênfase de artes práticas com objetivo de defesa nacional para desportos que conferem maior harmonia e universalidade.

Em JAPÃO - PERFIL DE UMA NAÇÃO.
Publicado pela editora KODANSHA INTERNATIONAL
1995 - Página 324."

Historicamente, quando os -Jutsu  passaram a -Dô , o militarismo samurai antigo  - característico dos séculos anteriores - foi definitivamente extinto, passando o treino marcial a ser feito de forma a dar maior difusão e alcance popular das "Vias Militares" / "Caminhos militares", mantendo - de certa forma - a ordem social vigente no Japão da época. 

E é assim que as "Artes Marciais" devem ser treinadas nos dias de hoje! Sem o militarismo historicamente extinto, mas como via de aperfeiçoamento humano.

Ou seja, aqueles instrutores que teimam em dizer que "na minha escola treina-se o Bushidô", "somos guerreiros", "o treino do karate é feito como se de um treino de samurai se tratasse."... um militarismo estupidamente exacerbado é característica de quem não sabe absolutamente nada do que ensina a nível de cultura real japonesa... em alguns casos com graduações que definitivamente não condizem com o conhecimento efetivo (quantitativa e qualitativamente).
São pessoas medíocres que passam uma visão completamente errada do Karate apenas com propósito de auto-promoção e de promoção de valores que eles "julgam" ser "tradicionais". 
Estes indivíduos simplesmente não se conseguem aperceber das figuras ridículas e patéticas que fazem diante daqueles que realmente conhecem o verdadeiro Karate e a sua evolução histórica. Ou acreditam que um mestre japonês - ou qualquer outra pessoa que tenha conhecimento efetivo sobre Karate -  não sabe a diferença entre a realidade e o ridículo? Entre o Karateka e o palhaço.

A pergunta - depois de entendermos o que é "marcial" para os orientais - é:

"O Karate é uma Arte Marcial ou um Desporto de Combate?"

Vamos, muito rapidamente, repassar conceitos elementares:

1. As artes marciais japonesas atuais são Budô.
2. Budô significa "Vias ou Caminhos militares".
3. "Via / Caminho Militar" no sentido japonês significa "As vias para se PARAR um combate ou hostilidade".
4. "Parar um combate ou hostilidade" significa que o acesso a um potencial conflito - que pode eventualmente escalar em confronto - deve ser feito em primeiro lugar diplomaticamente ou - no caso de esta opção falhar - através de exércitos (a nível de nações) ou "através do diálogo ou defesa pessoal" no caso de indivíduos.
5. O Karate pertence ao Budô e carrega em si todos os conceitos acima indicados.

Portanto, a minha resposta à questão acima é.

"O Karate é, de fato, uma arte marcial que aprimora o físico e a auto-confiança do praticante através da prática do desporto de combate, contribuindo de forma consistente para a harmonia social."

Ou seja, o Karate tanto é "Arte Marcial" (no sentido oriental e contributo de harmonia social) como Desporto de Combate (como condicionamento físico militar ou desportivo)!

押忍
Osu



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

10. O Karate NÃO é Japonês.

"MARTIAL ARTS
(bujutsu). Also called bugei; now usually called budo or "the Martial Way." The japanese terms encompass such martial arts as kendo (fencing), judo, and kyudo (archery). The old expression bugei juhappan (the 18 martial arts) refers to the arts of archery, horsemanship, spearmanship (sojustsu), fencing, swimming, iai (sword drawing), the short sword, the truncheon (jitte), dagger throwing (shuriken), needle spitting, the halberd (naginata), gunnery, roping, yawara (present day Judo), ninjutsu (spying), the staff, mojiri (a staff with numerous barbs on one end), and the chained sickle (kusarigama). Karate is not considered one of the traditional japanese martial arts, although it is sometimes referred to as such outside of japan. In the EDO period (1600-1868), in addition to academic subjects, warriors were required to learn six martial arts: fencing, spearmanship, archery, horseback riding, jujutsu (now known as Judo), and fire arms. These six, together with military strategy, were called the seven martial arts. These were taught under the name bushido (the Way of the Warrior). 
After the Meiji Restoration (1868) the content of martial arts changed greatly, reflecting the fact that they were no longer meant to be used in combat and were no longer exclusive attainments of the warrior class. Reflection this new circunstance, bujutsu was replaced by the term budo, implying that one would be trained in spiritual principles rather than for combat.
(...)
After World War II, there was a need to modify certain views of the martial arts, and the enphasis from practical arts intended for national defense,  to sports that stress harmony and universality."

In JAPAN - PROFILE OF A NATION
Published by KODANSHA INTERNATIONAL
1995 - Page 324


Passo a traduzir...

"ARTES MARCIAIS
(bujutsu 武術) Também chamado bugei 武芸, agora comumente chamado budô 武道 ou "A Via Marcial" ou "O Caminho Marcial" são termos japoneses que englobam artes marciais como o Kendô 剣道 (esgrima japonesa), Jûdô 柔道 e Kyûdô 弓道 (arco e flechas). A antiga expressão bugei jûhappan 武芸十八般 (as 18 artes marciais) referia-se às seguintes artes:
01. 弓術 Kyû-jutsu - arqueria ou tiro com arco,
02. 馬術 Ba-jutsu - a arte do cavalo, hipismo,
03. 槍術 Sô-jutsu - arte da lança,
04. 剣術 Ken-jutsu - a arte da esgrima japonesa,
05. 水蓮 Suiren - natação,
06. 居合術 Iaijutsu - arte de desembainhar a espada,
07. 短刀術 Tantô-jutsu - a arte da espada curta
08. 十手 Jitte-jutsu - a arte do bastão dos oficiais do governo,
09. 手裏剣 Shuriken-jutsu - a arte do lançamento de adagas
10. 吹き矢 Fukiya-jutsu - a arte do sopro de agulhas / zarabatana,
11. 薙刀 Naginata-jutsu - a arte da alabarda,
12. 鉄砲術 Teppô-jutsu - a arte das armas de fogo,
13. 捕縄術 Hojô-jutsu/Hobaku-jutsu - a arte de nós e amarrações,
14.  Yawara -  o Jûdô contemporâneo,
15. 忍術 Ninjutsu - arte da espionagem,
16. 棒術 Bô-jutsu - a arte do bastão,
17. 錑術 Mojiri - a arte do bastão com picos em uma das extremidades e
18. 鎖鎌術 Kusarigama-jutsu - a arte da foice com corrente
O karate não é considerado uma das artes marciais tradicionais japonesas, apesar de algumas vezes ser referido como tal fora do Japão. No período Edo (1600-1868), em adição às matérias acadêmicas, eram exigidas aos guerreiros que aprendesse seis artes marciais: esgrima, lança, arqueria, hipismo, jûjutsu (agora conhecido como Jûdô) e armas de fogo. Estas seis juntas com Gunji-senryaku 軍事戦略 "a estratégia militar" eram chamadas "As sete artes marciais". Estas eram ensinadas sob o nome Bushidô 武士道 (A Via - ou Caminho - do Guerreiro). 
Após a Restauração Meiji (Meiji Ishin 明治維新 - 1868) o conteúdo das artes marciais mudou enormemente, refletindo o fato de que elas não mais deveriam ser utilizadas em combate e que já não eram de treino exclusivo da classe guerreira. Refletindo esta nova circunstância, o Bujutsu 武術 foi substituido pelo termo Budô 武道, implicando que deveria ser treinado mais sob princípios espirituais do que para o combate.
(...)
Depois da Segunda Guerra Mundial, houve a necessidade de modificar certas visões das artes marciais e (mudar) a ênfase de artes práticas com objetivo de defesa nacional para desportos que conferem maior harmonia e universalidade.

Em JAPÃO - PERFIL DE UMA NAÇÃO.
Publicado pela editora KODANSHA INTERNATIONAL
1995 - Página 324.

Notas finais:
1. Isto são fatos históricos, portanto, quer muitos gostem ou não, não há como mudar a história do Japão para se adaptar às nossas conveniências a nível de ensino de artes marciais no ocidente. Posicionamentos caricatos, alienados, de ignorância histórica japonesa e afirmações do tipo "O meu estilo segue a tradição guerreira do antigo Japão" etc. definitivamente não refletem a realidade e tradição naturais das artes marciais que dignificam o Japão de ontem e de hoje. O respeito pela arte  (marcial ou não) que se pratica também passa pela compreensão dos fatos históricos a ela ligados. A razão de o Karate não ser japonês exige - por parte de um certo tipo de instrutores desta arte - que tirem os seus traseiros do comodismo, desçam do pedestal de vaidade a que chamam graduações (DAN - cintos/faixas pretas) e humildemente ESTUDEM a arte que ensinam antes de difundirem disparates, tolices e ilusões que só na cabeça deles existem! 
Uma sugestão: para iniciar, um estudo mais sério sobre a história de Ryûkyû (Okinawa) talvez não fosse uma má idéia para entender realmente o que é a tradição do Karate (?!). 
2. Outra coisa que deve ficar bem clara é: por "princípios espirituais" entenda-se  princípios espirituais japoneses para japoneses (porque eles têm o Shintô e o Budismo como guia filosófico-espiritual para os seus dia a dia) e não se aplica à civilização ocidental. 
Instrutores mal informados que impingem uma treta religiosa no Karate deveriam parar com esta estupidez para o bem do próprio Karate... Pensando bem, nem chega a ser  "treta religiosa no Karate", uma vez que não se vê nenhum monge com conhecimento efetivo e vivência religiosa a dar aulas - portanto - tais instrutores deveriam restringir-se ao que dominam e não inventem nada que não sejam capazes de fundamentar. Um DVD, um livro ou o Youtube não faz de ninguém um monge ou, pior, um samurai.
3. Assim sendo, o Karate deve ser praticado dentro do contexto no qual está inserido. Sem tretas, sem enganos, de forma honesta. Não precisa ser nenhum Albert Einstein para entender o que isso significa... principalmente deverá ter isto em mente quem for realmente um bom instrutor.


E nada mais tenho a dizer sobre este assunto.

09. Karate-dô e Religião.

Não há outro assunto onde a maioria esmagadora dos instrutores de Karate sejam mais "férteis" do que a associação infeliz do Karate-dô a uma vertente religiosa! 
Esta "fertilidade" deve-se principalmente à quantidade imensurável de "adubo" que vai dentro da cabeça daqueles instrutores que se recusam a estudar a arte que praticam e a cultura japonesa à qual estas mesmas artes de combate estão associadas.

Consequentemente, nesta primeira abordagem ao assunto em questão devemos entender o contexto onde ambos os assuntos (Karate-dô e religião) estão envolvidos e onde "supostamente" estariam ligados de alguma forma.

Para começar, devemos entender que as artes marciais orientais antigas tinham dois propósitos únicos: 
1 - Matar outro ser humano ou morrer em combate corpo a corpo ou 
2 - Condicionamento físico religioso para longos períodos de meditação.

Na Ásia e - no nosso caso em particular - no Japão feudal isso não era exceção. 
A religião e o Militarismo estavam na realidade intimamente ligados. Era um período de guerras e de agitação social. Naquela época - como nos dias de hoje - o Japão tinha (e ainda tem) duas religiões oficiais: uma nativa (Xintoísmo) e outra importada da China (Budismo) - ambas convivendo lado a lado sem problemas maiores.
A classe dominante do período feudal precisava de valores morais que justificassem o modo de vida da época, o Bushidô 武士道, e, neste contexto, o Bukkyô 仏教 (Budismo) e o Shintô  神道 (Xintoísmo) serviam plenamente! 
Através do Budismo, os guerreiros compreendiam que a atitude diante da vida e da morte nada mais era do que a mesma coisa e através do Xinstoísmo sabiam o dever para com o seu senhor feudal e suas obrigações sociais. Colocados nestes termos, religião e arte marcial não podiam mesmo estar separadas.
Sob estes alicerces, as artes -Jutsu 術 (militares) e as artes -Hô 法 (religiosas) desenvolveram-se e proliferaram. Por exemplo: Kenjutsu 剣術 ("Artes da espada") e kenpô 拳法 ("doutrina dos punhos") respectivamente.
Passados alguns séculos de guerras internas, o Japão acaba por ser unificado sob a regência Tokugawa 徳川 e após duzentos anos de xogunato chega ao fim. 
*** Aqui são necessários dois pequenos comentários dignos de reflexão: 
1. "O que fazem os guerreiros em tempo de paz? E o que fazem estes guerreiros após 200 anos de paz?" 
É importante saber que - sem precisar de muito trabalho cerebral - os guerreiros já estavam "agitados" e frequentemente perturbavam a ordem social. Também não é necessário dizer que o Bushidô 武士道 já estava em declínio... Isso pode ser verificado na obra HAGAKURE KIKIGAKI 葉隠聞書 de Yamamoto Tsunetomo 山本常朝 (11 Jun 1659 a 30 Nov 1719) onde o autor lamenta o aparecimento do "Bushidô fraco".
2. Estamos a entrar na "Restauração Meiji" (明治維新)... Fim das artes -jutsu , fim dos samurai , etc.
********** ATENÇÃO AGORA! **********
É aqui que os ocidentais metem o pé na poça em relação ao Karate e a Religião!
Espalham-se à grande porque:
1 - recusam-se a aceitar o fim dos samurai e das artes -jutsu.
2 - porque não vêem o óbvio: Oh! Meus amigos! Os Samurai podem ter desaparecido, o militarismo japonês pode ter desaparecido, os -Jutsu podem ter desaparecido, mas os japoneses continuam a ser budistas e/ou xintoístas! 
Nada mais natural, então, para eles (japoneses) a religião fazer parte das Artes nacionais. Mas nós NÃO somos japoneses e nem o budismo, nem o xintoísmo são religiões ocidentiais!! 
As artes marciais japonesas praticadas, mesmo no Japão, NÃO apresentam aspectos religiosos e nenhuma instrução é dada a este respeito (religião) - em qualquer parte do planeta! Visa-se agora principalmente a vertente desportiva.
Por outro lado, se alguns instrutores prestassem um pouquinho de atenção à questão budista, veriam que em se tratando de "salvação espiritual" o Budismo está dividido em duas vertentes: mahāyāna - "Grande veículo" e Hīnayāna - "Pequeno veículo". Basicamente pode-se entender cada uma através da seguinte analogia: Mahāyāna é um ônibus, cheio de imagens do Buda - apinhado de gente ladeira abaixo e Hīnayāna é uma bicicleta porcaria ladeira acima, onde o "crente" tem que pedalar o percurso todo. Ou seja, uma via é para o povão e a outra - desprovida de simbolismos, é para os ascetas. Se uma apresenta imagens de Buda e a outra proibe a apresentação de imagens do Buda, então, o cerimonial no início dos treinos é tradicionamente Xintoísta e é executado mundialmente da mesma forma, independente do país ou religião oficial. 

Por outro lado, para aqueles que "amam" o Zen, vamos deixar claras algumas coisas:
- Mokusô 黙想 (Pensamento silencioso) não é Zazen 座禅 (Meditação sentada budista).
- O ideograma Kara 空 em Karate 空手 foi alterado para dar uma dose filosófica à arte para se ajustar à introdução do Karate no Japão... e posteriormente foi adicionado o sufixo Dô 道 para maior ênfase ao "Caminho".
- Não há tretas transcendentes em Karate. Ou é ou não é, ou se sabe ou não se sabe.

Poderia perder um tempo enorme em especulações, mas a realidade é simples: se não sabe não deveria ensinar (ou fazer)... Infelizmente esta não é a realidade do ensino marcial dos dias de hoje.


Tenho a certeza que muitas pessoas devem estar a pensar agora: "Mas isso tira o misticismo do Karate-dô!" Sejamos sinceros: com tanto que se tem para estudar, com tanto que se tem para praticar... o misticismo ainda faz algum sentido?


Só tem tempo a perder com "religião", misticismos e transcendencias em Karate-dô quem negligencia o treino e o estudo da tradição e história da verdadeira arte que pratica.

押忍
Osu

terça-feira, 22 de novembro de 2011

08. As fases do conhecimento.

No mundo das artes marciais japonesas ensinadas no ocidente, muitos conceitos são ensinados de forma errada, mas raros são aqueles alunos ou instrutores que buscam realmente o conhecimento sobre a arte que praticam. 
Posições como "A figura, o conhecimento do mestre não se questiona." e "Devemos fazer exatamente como o mestre diz" parecem ser um dogma intocável. ERRADO! Hoje eu vou mostrar porque questionar, perguntar, procurar respostas é importante para o desenvolvimento de qualquer praticante de Artes Marciais japonesas.
Basicamente pode-se traçar o desenvolvimento e maturidade de um praticante de Artes Marciais através de três fases distintas. (Vou fazer uma analogia ao crescimento humano para ficar mais fácil a compreensão do assunto abordado.) (^_^)

1ª Fase: O Bebê / O Shoshinsha 初心者.
Ser "macaquinhos de imitação" é o que se espera dos bebês que estão a obter os primeiros conhecimentos do mundo ou dos Shoshinsha 初心者 iniciantes (ou iniciados) que estão a obter os primeiros conhecimentos do mundo marcial. 
Estes devem ser instruídos de forma paciente e supervisionada ensinando o certo e o errado a respeito do "Caminho" (de vida ou marcial). As trapalhadas, os acidentes e incidentes... tudo acontece nesta fase. Naturalmente, dependendo do grau de supervisão levado a efeito (dos pais e dos mestres respectivamente) as situações podem ser minimizadas ou agravadas. Tudo que o bebê faz, tudo que iniciante faz é espelho daquilo que os pais e mestres ensinam.

2ª Fase: O Adolescente / O Shodan 初段.
À medida que o bebê cresce e torna-se adolescente, à medida que o iniciante evolui no treino e torna-se Shodan 初段 - traduzido literalmente do japonês significa"nível inicial" e não "1º Dan" como erradamente encontra-se difundido por toda a comunidade marcial, ou seja, é aqui que o iniciante "começa" verdadeiramente na arte que pratica , o cérebro já tem informação o suficiente para pensar por si mesmo e é capaz de saber o que é certo e o que é errado de forma mais ou menos consistente em se tratando da vida ou da arte marcial que pratica. Do adolescente espera-se, consequentemente, que não faça "xixi na cama", do Shodan espera-se que seja capaz de entender os conceitos básicos que lhe foram passados no seu período como Mudansha 無段者 "aquele que não possui o nível Dan" (cintos/faixas coloridas). Basicamente espera-se que saibam usar os cérebros para elaborar decisões com base nas suas "maturidades" para determinada fase do desenvolvimento como ser humano ou como praticante de uma arte marcial japonesa qualquer.

3ª fase: O adulto / O Sensei 先生.
Quando o adolescente torna-se adulto, quando o Shodan torna-se Sensei 先生 - genericamente traduzido como "professor" - espera-se estar no seu ponto máximo de maturidade e responsabilidade. Atenção! "Esperar" não quer dizer necessariamente que isso ocorra em alguns casos! É muitíssimo fácil encontrar pais e mestres imaturos e irresponsáveis. Neste ponto o adulto constitui uma família, o Sensei fica responsável por um dôjô 道場 e dão início a um novo ciclo - reiniciando a 1ª fase novamente
Agora, falemos dos Sensei 先生 e a sua responsabilidade no ensino.
Ser um Sensei 先生 não é tarefa fácil. Estou a falar num verdadeiro instrutor.
Existem vários problemas a serem superados.
Em primeiro lugar, o vocabulário japonês para um instrutor é enorme! E o instrutor deve dominá-lo - integralmente - para responder às dúvidas dos alunos de forma concreta sem alimentar mais dúvidas.
Em segundo lugar, os conceitos técnicos e filosóficos a respeito do Karate também são um obstáculo considerável, porque as fontes de informação a este respeito no ocidente são muito questionáveis e 99% dos casos carecem de pesquisa e profundidade de conhecimento por parte de quem os elabora.
Para facilitar a vida de todos, o que deveria ser feito neste aspecto seria <anotar todas as dúvidas num caderno e, num estágio com mestres (japoneses ou não), tirar todas as dúvidas>. Tão simples como isso! Vergonha?! Não quer incomodar o mestre?! 
A função do verdadeiro mestre (oriental ou ocidental) é tirar dúvidas aos discípulos. Um verdadeiro mestre NUNCA irá ficar chateado por ter de responder a questões dos alunos para as quais só ele pode responder... a não ser que este mesmo "mestre" só tenha acumulado faixas pretas e não tenha se dado ao trabalho de estudar a arte que ensina. Neste caso, é possível que ele não faça idéia ou não tenha conhecimento suficiente para responder com segurança às perguntas apresentadas pelos alunos. (^_^) Aqui começam a "inventar" respostas disparatadas ou ficam irritados!
Por isso, vergonha à parte, toquem a questionar! E lembrem-se sempre que com uma grande posição vem uma grande responsabilidade. 
Mas a pergunta pertinente agora é: "Como um pai ou mestre chega a este grau de responsabilidade?"
Em se tratando de adultos e mestres de artes marciais, a resposta é bastante simples: atinge-se elevado grau de responsabilidade através de conhecimento efetivo, de experiência sólida e respeito pelo conhecimento próprio e daqueles sob as suas orientações, conhecimento e compreensão da prática e da teoria sobre a vida e sobre as artes marciais respectivamente. Contudo, só se chega a este conhecimento e experiência através da própria vivência de eventos. Ninguém caminha com os pés dos outros. O que pode servir em uma pessoa, pode não servir para outra.
"Calma lá! Se não há um conhecimento que seja igual para duas pessoas diferentes, então, como se sabe o que é melhor para uma determinada pessoa? "
Através do nosso bom e velho "questionamento", da busca de respostas e da análise de cada ocorrência em particular. Perguntar, procurar respostas, questionar, pesquisar... tudo traz conhecimento e o conhecimento traz a solidez do ensino.
Como disse antes, ser "macaquinho de imitação" faz bem na primeira fase do ensino, mas não é o que se espera de um Shodan 初段 ou de um Sensei 先生.

Por fim, deixo algo em que eu acredito e que deveria ser um guia para TODOS os instrutores de Artes Marciais japonesas:

"Não acredite em algo apenas porque ouviu falar sobre isso. 
Não acredite em algo apenas porque isso foi passado de geração em geração.
Não acredite em algo apenas porque é falado ou há rumores ditos e espalhados por muitos. 
Não acredite em algo apenas porque está escrito em escrituras sagradas. 
Não acredite em algo apenas baseado na experiência dos mestres, pessoas mais velhas e sábios. 
Acredite em algo apenas depois de cuidadosa observação e análise, quando achar que isso concorda com a razão e conduz ao bem e benefício de um e de todos. 
Então aceite esta verdade e viva através dela." 

-------------------------- Siddhārtha Gautama - O Buddha histórico.



押忍
Osu!

07. Karate e o Dô.

Basicamente o que se quer saber é: "O que é o Dô 道 e como segui-lo?"

Essa é uma pergunta bastante pertinente, porque na realidade são raros os instrutores que sabem a que se refere o Dô... Arriscaria dizer que apenas 1 ou 2% destes sabe(m) realmente o que é o Dô.

O Dô 道 é facilmente entendido se entendermos o CONTEXTO onde este foi desenvolvido! 

Quando o Japão saiu do período feudal com o começo da restauração Meiji 明治維新 (Meiji Ishin) o belicismo, os Samurai 侍, as artes da guerra (escolas "-Jutsu" 術) do período anterior já não faziam (e não fazem nos dias de hoje) o menor sentido. O Japão tinha de se afastar do militarismo dos séculos anteriores e ingressar numa nova era de paz. Assim, o Dô 道 como meio de vida substituiu os -Jutsu 術 militares. 

Ou seja, as artes -DÔ  substituiram as artes -JUTSU O Jû-jutsu 柔術 passou a Jûdô 柔道, o Kenjutsu 剣術 passou a Kendô 剣道, o Aikijutsu 合気術 passou a Aikidô 合気道 e assim por diante. A mentalidade guerreira (do passado) deveria evoluir e dar lugar a evolução da sociedade e artes japonesas.

O problema dos instrutores de Karate é que não acompanharam esta evolução histórica e teimam em introduzir conceitos que já não existem dentro da sociedade e artes japonesas, apenas porque acham que com isso a sua escola vai ser mais "marcial" do que as outras. O que estão a fazer, na realidade, é deturpar o Karate em si, deturpar a evolução natural da sociedade japonesa e a transmitir informação errada aos seus alunos.

O Dô 道 nada mais é do que uma transformação e um posicionamento social, com as consequencias inerentes de uma evolução histórica natural.


Dô 道, definitivamente, não é sinónimo de "Samurai" ou qualquer outro disparate que pessoas com pouco conhecimento da história e tradição marcial japonesas tentam impingir.


Mas a questão agora é: "COMO aplicar o "Dô 道" (Caminho, Via) ao Karate praticado nos dias de hoje?"


Primeiro temos de ver como 98 ou 99% dos instrutores vêem este "Caminho".


Nós, seres humanos, temos uma tendência de criar fantasias sobre assuntos que não dominamos ou compreendemos. Criamos ilusões e idéias sobre "como deveria ser" detrminado tópico - isso é natural e não há problema algum quanto a isso.


Então começamos nas artes marciais e - mais cedo ou mais tarde - lemos, assistimos filmes sobre os Samurai ("Serviçal") e o Bushidô 武士道 ("Via do Guerreiro" - o código moral não escrito dos antigos guerreiros). Quem é que não fica fascinado com o assunto? Guerreiros, honra, vida e morte... a expressão máxima das Artes Marciais! 


"Olha! Temos o "Dô 道" na palavra Bushidô 武士道!" Afirmam alguns...


É aqui que o problema começa. Por associação directa, alguns instrutores associam o Dô 道 na palavra Bushidô 武士道 ao Dô 道 em Karate-Dô 空手道. E não só em Karate-Dô, mas em Jûdô, Kendô, etc. Para estes instrutores mal informados, os Samurai são o modelo a seguir. ERRADO! Este Dô a que se refere o Karate-Dô é justamente o afastamento do Bujutsu 武術 "militarismo" do passado, inadequado para o Japão dos dias de hoje.


Assim, o Dô que se deve viver no Karate de hoje no contexto japonês é a formação de elementos úteis à sociedade contemporânea e com espírito de esforço e dedicação forjado nas artes do combate. Isso é o Dô a que as artes marciais se referem! 


Não tem nada a ver com Bushidô ou qualquer outro assuntos relacionado com o mesmo.

Publicado in
22 Novembro 2011