quarta-feira, 23 de novembro de 2011

10. O Karate NÃO é Japonês.

"MARTIAL ARTS
(bujutsu). Also called bugei; now usually called budo or "the Martial Way." The japanese terms encompass such martial arts as kendo (fencing), judo, and kyudo (archery). The old expression bugei juhappan (the 18 martial arts) refers to the arts of archery, horsemanship, spearmanship (sojustsu), fencing, swimming, iai (sword drawing), the short sword, the truncheon (jitte), dagger throwing (shuriken), needle spitting, the halberd (naginata), gunnery, roping, yawara (present day Judo), ninjutsu (spying), the staff, mojiri (a staff with numerous barbs on one end), and the chained sickle (kusarigama). Karate is not considered one of the traditional japanese martial arts, although it is sometimes referred to as such outside of japan. In the EDO period (1600-1868), in addition to academic subjects, warriors were required to learn six martial arts: fencing, spearmanship, archery, horseback riding, jujutsu (now known as Judo), and fire arms. These six, together with military strategy, were called the seven martial arts. These were taught under the name bushido (the Way of the Warrior). 
After the Meiji Restoration (1868) the content of martial arts changed greatly, reflecting the fact that they were no longer meant to be used in combat and were no longer exclusive attainments of the warrior class. Reflection this new circunstance, bujutsu was replaced by the term budo, implying that one would be trained in spiritual principles rather than for combat.
(...)
After World War II, there was a need to modify certain views of the martial arts, and the enphasis from practical arts intended for national defense,  to sports that stress harmony and universality."

In JAPAN - PROFILE OF A NATION
Published by KODANSHA INTERNATIONAL
1995 - Page 324


Passo a traduzir...

"ARTES MARCIAIS
(bujutsu 武術) Também chamado bugei 武芸, agora comumente chamado budô 武道 ou "A Via Marcial" ou "O Caminho Marcial" são termos japoneses que englobam artes marciais como o Kendô 剣道 (esgrima japonesa), Jûdô 柔道 e Kyûdô 弓道 (arco e flechas). A antiga expressão bugei jûhappan 武芸十八般 (as 18 artes marciais) referia-se às seguintes artes:
01. 弓術 Kyû-jutsu - arqueria ou tiro com arco,
02. 馬術 Ba-jutsu - a arte do cavalo, hipismo,
03. 槍術 Sô-jutsu - arte da lança,
04. 剣術 Ken-jutsu - a arte da esgrima japonesa,
05. 水蓮 Suiren - natação,
06. 居合術 Iaijutsu - arte de desembainhar a espada,
07. 短刀術 Tantô-jutsu - a arte da espada curta
08. 十手 Jitte-jutsu - a arte do bastão dos oficiais do governo,
09. 手裏剣 Shuriken-jutsu - a arte do lançamento de adagas
10. 吹き矢 Fukiya-jutsu - a arte do sopro de agulhas / zarabatana,
11. 薙刀 Naginata-jutsu - a arte da alabarda,
12. 鉄砲術 Teppô-jutsu - a arte das armas de fogo,
13. 捕縄術 Hojô-jutsu/Hobaku-jutsu - a arte de nós e amarrações,
14.  Yawara -  o Jûdô contemporâneo,
15. 忍術 Ninjutsu - arte da espionagem,
16. 棒術 Bô-jutsu - a arte do bastão,
17. 錑術 Mojiri - a arte do bastão com picos em uma das extremidades e
18. 鎖鎌術 Kusarigama-jutsu - a arte da foice com corrente
O karate não é considerado uma das artes marciais tradicionais japonesas, apesar de algumas vezes ser referido como tal fora do Japão. No período Edo (1600-1868), em adição às matérias acadêmicas, eram exigidas aos guerreiros que aprendesse seis artes marciais: esgrima, lança, arqueria, hipismo, jûjutsu (agora conhecido como Jûdô) e armas de fogo. Estas seis juntas com Gunji-senryaku 軍事戦略 "a estratégia militar" eram chamadas "As sete artes marciais". Estas eram ensinadas sob o nome Bushidô 武士道 (A Via - ou Caminho - do Guerreiro). 
Após a Restauração Meiji (Meiji Ishin 明治維新 - 1868) o conteúdo das artes marciais mudou enormemente, refletindo o fato de que elas não mais deveriam ser utilizadas em combate e que já não eram de treino exclusivo da classe guerreira. Refletindo esta nova circunstância, o Bujutsu 武術 foi substituido pelo termo Budô 武道, implicando que deveria ser treinado mais sob princípios espirituais do que para o combate.
(...)
Depois da Segunda Guerra Mundial, houve a necessidade de modificar certas visões das artes marciais e (mudar) a ênfase de artes práticas com objetivo de defesa nacional para desportos que conferem maior harmonia e universalidade.

Em JAPÃO - PERFIL DE UMA NAÇÃO.
Publicado pela editora KODANSHA INTERNATIONAL
1995 - Página 324.

Notas finais:
1. Isto são fatos históricos, portanto, quer muitos gostem ou não, não há como mudar a história do Japão para se adaptar às nossas conveniências a nível de ensino de artes marciais no ocidente. Posicionamentos caricatos, alienados, de ignorância histórica japonesa e afirmações do tipo "O meu estilo segue a tradição guerreira do antigo Japão" etc. definitivamente não refletem a realidade e tradição naturais das artes marciais que dignificam o Japão de ontem e de hoje. O respeito pela arte  (marcial ou não) que se pratica também passa pela compreensão dos fatos históricos a ela ligados. A razão de o Karate não ser japonês exige - por parte de um certo tipo de instrutores desta arte - que tirem os seus traseiros do comodismo, desçam do pedestal de vaidade a que chamam graduações (DAN - cintos/faixas pretas) e humildemente ESTUDEM a arte que ensinam antes de difundirem disparates, tolices e ilusões que só na cabeça deles existem! 
Uma sugestão: para iniciar, um estudo mais sério sobre a história de Ryûkyû (Okinawa) talvez não fosse uma má idéia para entender realmente o que é a tradição do Karate (?!). 
2. Outra coisa que deve ficar bem clara é: por "princípios espirituais" entenda-se  princípios espirituais japoneses para japoneses (porque eles têm o Shintô e o Budismo como guia filosófico-espiritual para os seus dia a dia) e não se aplica à civilização ocidental. 
Instrutores mal informados que impingem uma treta religiosa no Karate deveriam parar com esta estupidez para o bem do próprio Karate... Pensando bem, nem chega a ser  "treta religiosa no Karate", uma vez que não se vê nenhum monge com conhecimento efetivo e vivência religiosa a dar aulas - portanto - tais instrutores deveriam restringir-se ao que dominam e não inventem nada que não sejam capazes de fundamentar. Um DVD, um livro ou o Youtube não faz de ninguém um monge ou, pior, um samurai.
3. Assim sendo, o Karate deve ser praticado dentro do contexto no qual está inserido. Sem tretas, sem enganos, de forma honesta. Não precisa ser nenhum Albert Einstein para entender o que isso significa... principalmente deverá ter isto em mente quem for realmente um bom instrutor.


E nada mais tenho a dizer sobre este assunto.

09. Karate-dô e Religião.

Não há outro assunto onde a maioria esmagadora dos instrutores de Karate sejam mais "férteis" do que a associação infeliz do Karate-dô a uma vertente religiosa! 
Esta "fertilidade" deve-se principalmente à quantidade imensurável de "adubo" que vai dentro da cabeça daqueles instrutores que se recusam a estudar a arte que praticam e a cultura japonesa à qual estas mesmas artes de combate estão associadas.

Consequentemente, nesta primeira abordagem ao assunto em questão devemos entender o contexto onde ambos os assuntos (Karate-dô e religião) estão envolvidos e onde "supostamente" estariam ligados de alguma forma.

Para começar, devemos entender que as artes marciais orientais antigas tinham dois propósitos únicos: 
1 - Matar outro ser humano ou morrer em combate corpo a corpo ou 
2 - Condicionamento físico religioso para longos períodos de meditação.

Na Ásia e - no nosso caso em particular - no Japão feudal isso não era exceção. 
A religião e o Militarismo estavam na realidade intimamente ligados. Era um período de guerras e de agitação social. Naquela época - como nos dias de hoje - o Japão tinha (e ainda tem) duas religiões oficiais: uma nativa (Xintoísmo) e outra importada da China (Budismo) - ambas convivendo lado a lado sem problemas maiores.
A classe dominante do período feudal precisava de valores morais que justificassem o modo de vida da época, o Bushidô 武士道, e, neste contexto, o Bukkyô 仏教 (Budismo) e o Shintô  神道 (Xintoísmo) serviam plenamente! 
Através do Budismo, os guerreiros compreendiam que a atitude diante da vida e da morte nada mais era do que a mesma coisa e através do Xinstoísmo sabiam o dever para com o seu senhor feudal e suas obrigações sociais. Colocados nestes termos, religião e arte marcial não podiam mesmo estar separadas.
Sob estes alicerces, as artes -Jutsu 術 (militares) e as artes -Hô 法 (religiosas) desenvolveram-se e proliferaram. Por exemplo: Kenjutsu 剣術 ("Artes da espada") e kenpô 拳法 ("doutrina dos punhos") respectivamente.
Passados alguns séculos de guerras internas, o Japão acaba por ser unificado sob a regência Tokugawa 徳川 e após duzentos anos de xogunato chega ao fim. 
*** Aqui são necessários dois pequenos comentários dignos de reflexão: 
1. "O que fazem os guerreiros em tempo de paz? E o que fazem estes guerreiros após 200 anos de paz?" 
É importante saber que - sem precisar de muito trabalho cerebral - os guerreiros já estavam "agitados" e frequentemente perturbavam a ordem social. Também não é necessário dizer que o Bushidô 武士道 já estava em declínio... Isso pode ser verificado na obra HAGAKURE KIKIGAKI 葉隠聞書 de Yamamoto Tsunetomo 山本常朝 (11 Jun 1659 a 30 Nov 1719) onde o autor lamenta o aparecimento do "Bushidô fraco".
2. Estamos a entrar na "Restauração Meiji" (明治維新)... Fim das artes -jutsu , fim dos samurai , etc.
********** ATENÇÃO AGORA! **********
É aqui que os ocidentais metem o pé na poça em relação ao Karate e a Religião!
Espalham-se à grande porque:
1 - recusam-se a aceitar o fim dos samurai e das artes -jutsu.
2 - porque não vêem o óbvio: Oh! Meus amigos! Os Samurai podem ter desaparecido, o militarismo japonês pode ter desaparecido, os -Jutsu podem ter desaparecido, mas os japoneses continuam a ser budistas e/ou xintoístas! 
Nada mais natural, então, para eles (japoneses) a religião fazer parte das Artes nacionais. Mas nós NÃO somos japoneses e nem o budismo, nem o xintoísmo são religiões ocidentiais!! 
As artes marciais japonesas praticadas, mesmo no Japão, NÃO apresentam aspectos religiosos e nenhuma instrução é dada a este respeito (religião) - em qualquer parte do planeta! Visa-se agora principalmente a vertente desportiva.
Por outro lado, se alguns instrutores prestassem um pouquinho de atenção à questão budista, veriam que em se tratando de "salvação espiritual" o Budismo está dividido em duas vertentes: mahāyāna - "Grande veículo" e Hīnayāna - "Pequeno veículo". Basicamente pode-se entender cada uma através da seguinte analogia: Mahāyāna é um ônibus, cheio de imagens do Buda - apinhado de gente ladeira abaixo e Hīnayāna é uma bicicleta porcaria ladeira acima, onde o "crente" tem que pedalar o percurso todo. Ou seja, uma via é para o povão e a outra - desprovida de simbolismos, é para os ascetas. Se uma apresenta imagens de Buda e a outra proibe a apresentação de imagens do Buda, então, o cerimonial no início dos treinos é tradicionamente Xintoísta e é executado mundialmente da mesma forma, independente do país ou religião oficial. 

Por outro lado, para aqueles que "amam" o Zen, vamos deixar claras algumas coisas:
- Mokusô 黙想 (Pensamento silencioso) não é Zazen 座禅 (Meditação sentada budista).
- O ideograma Kara 空 em Karate 空手 foi alterado para dar uma dose filosófica à arte para se ajustar à introdução do Karate no Japão... e posteriormente foi adicionado o sufixo Dô 道 para maior ênfase ao "Caminho".
- Não há tretas transcendentes em Karate. Ou é ou não é, ou se sabe ou não se sabe.

Poderia perder um tempo enorme em especulações, mas a realidade é simples: se não sabe não deveria ensinar (ou fazer)... Infelizmente esta não é a realidade do ensino marcial dos dias de hoje.


Tenho a certeza que muitas pessoas devem estar a pensar agora: "Mas isso tira o misticismo do Karate-dô!" Sejamos sinceros: com tanto que se tem para estudar, com tanto que se tem para praticar... o misticismo ainda faz algum sentido?


Só tem tempo a perder com "religião", misticismos e transcendencias em Karate-dô quem negligencia o treino e o estudo da tradição e história da verdadeira arte que pratica.

押忍
Osu

terça-feira, 22 de novembro de 2011

08. As fases do conhecimento.

No mundo das artes marciais japonesas ensinadas no ocidente, muitos conceitos são ensinados de forma errada, mas raros são aqueles alunos ou instrutores que buscam realmente o conhecimento sobre a arte que praticam. 
Posições como "A figura, o conhecimento do mestre não se questiona." e "Devemos fazer exatamente como o mestre diz" parecem ser um dogma intocável. ERRADO! Hoje eu vou mostrar porque questionar, perguntar, procurar respostas é importante para o desenvolvimento de qualquer praticante de Artes Marciais japonesas.
Basicamente pode-se traçar o desenvolvimento e maturidade de um praticante de Artes Marciais através de três fases distintas. (Vou fazer uma analogia ao crescimento humano para ficar mais fácil a compreensão do assunto abordado.) (^_^)

1ª Fase: O Bebê / O Shoshinsha 初心者.
Ser "macaquinhos de imitação" é o que se espera dos bebês que estão a obter os primeiros conhecimentos do mundo ou dos Shoshinsha 初心者 iniciantes (ou iniciados) que estão a obter os primeiros conhecimentos do mundo marcial. 
Estes devem ser instruídos de forma paciente e supervisionada ensinando o certo e o errado a respeito do "Caminho" (de vida ou marcial). As trapalhadas, os acidentes e incidentes... tudo acontece nesta fase. Naturalmente, dependendo do grau de supervisão levado a efeito (dos pais e dos mestres respectivamente) as situações podem ser minimizadas ou agravadas. Tudo que o bebê faz, tudo que iniciante faz é espelho daquilo que os pais e mestres ensinam.

2ª Fase: O Adolescente / O Shodan 初段.
À medida que o bebê cresce e torna-se adolescente, à medida que o iniciante evolui no treino e torna-se Shodan 初段 - traduzido literalmente do japonês significa"nível inicial" e não "1º Dan" como erradamente encontra-se difundido por toda a comunidade marcial, ou seja, é aqui que o iniciante "começa" verdadeiramente na arte que pratica , o cérebro já tem informação o suficiente para pensar por si mesmo e é capaz de saber o que é certo e o que é errado de forma mais ou menos consistente em se tratando da vida ou da arte marcial que pratica. Do adolescente espera-se, consequentemente, que não faça "xixi na cama", do Shodan espera-se que seja capaz de entender os conceitos básicos que lhe foram passados no seu período como Mudansha 無段者 "aquele que não possui o nível Dan" (cintos/faixas coloridas). Basicamente espera-se que saibam usar os cérebros para elaborar decisões com base nas suas "maturidades" para determinada fase do desenvolvimento como ser humano ou como praticante de uma arte marcial japonesa qualquer.

3ª fase: O adulto / O Sensei 先生.
Quando o adolescente torna-se adulto, quando o Shodan torna-se Sensei 先生 - genericamente traduzido como "professor" - espera-se estar no seu ponto máximo de maturidade e responsabilidade. Atenção! "Esperar" não quer dizer necessariamente que isso ocorra em alguns casos! É muitíssimo fácil encontrar pais e mestres imaturos e irresponsáveis. Neste ponto o adulto constitui uma família, o Sensei fica responsável por um dôjô 道場 e dão início a um novo ciclo - reiniciando a 1ª fase novamente
Agora, falemos dos Sensei 先生 e a sua responsabilidade no ensino.
Ser um Sensei 先生 não é tarefa fácil. Estou a falar num verdadeiro instrutor.
Existem vários problemas a serem superados.
Em primeiro lugar, o vocabulário japonês para um instrutor é enorme! E o instrutor deve dominá-lo - integralmente - para responder às dúvidas dos alunos de forma concreta sem alimentar mais dúvidas.
Em segundo lugar, os conceitos técnicos e filosóficos a respeito do Karate também são um obstáculo considerável, porque as fontes de informação a este respeito no ocidente são muito questionáveis e 99% dos casos carecem de pesquisa e profundidade de conhecimento por parte de quem os elabora.
Para facilitar a vida de todos, o que deveria ser feito neste aspecto seria <anotar todas as dúvidas num caderno e, num estágio com mestres (japoneses ou não), tirar todas as dúvidas>. Tão simples como isso! Vergonha?! Não quer incomodar o mestre?! 
A função do verdadeiro mestre (oriental ou ocidental) é tirar dúvidas aos discípulos. Um verdadeiro mestre NUNCA irá ficar chateado por ter de responder a questões dos alunos para as quais só ele pode responder... a não ser que este mesmo "mestre" só tenha acumulado faixas pretas e não tenha se dado ao trabalho de estudar a arte que ensina. Neste caso, é possível que ele não faça idéia ou não tenha conhecimento suficiente para responder com segurança às perguntas apresentadas pelos alunos. (^_^) Aqui começam a "inventar" respostas disparatadas ou ficam irritados!
Por isso, vergonha à parte, toquem a questionar! E lembrem-se sempre que com uma grande posição vem uma grande responsabilidade. 
Mas a pergunta pertinente agora é: "Como um pai ou mestre chega a este grau de responsabilidade?"
Em se tratando de adultos e mestres de artes marciais, a resposta é bastante simples: atinge-se elevado grau de responsabilidade através de conhecimento efetivo, de experiência sólida e respeito pelo conhecimento próprio e daqueles sob as suas orientações, conhecimento e compreensão da prática e da teoria sobre a vida e sobre as artes marciais respectivamente. Contudo, só se chega a este conhecimento e experiência através da própria vivência de eventos. Ninguém caminha com os pés dos outros. O que pode servir em uma pessoa, pode não servir para outra.
"Calma lá! Se não há um conhecimento que seja igual para duas pessoas diferentes, então, como se sabe o que é melhor para uma determinada pessoa? "
Através do nosso bom e velho "questionamento", da busca de respostas e da análise de cada ocorrência em particular. Perguntar, procurar respostas, questionar, pesquisar... tudo traz conhecimento e o conhecimento traz a solidez do ensino.
Como disse antes, ser "macaquinho de imitação" faz bem na primeira fase do ensino, mas não é o que se espera de um Shodan 初段 ou de um Sensei 先生.

Por fim, deixo algo em que eu acredito e que deveria ser um guia para TODOS os instrutores de Artes Marciais japonesas:

"Não acredite em algo apenas porque ouviu falar sobre isso. 
Não acredite em algo apenas porque isso foi passado de geração em geração.
Não acredite em algo apenas porque é falado ou há rumores ditos e espalhados por muitos. 
Não acredite em algo apenas porque está escrito em escrituras sagradas. 
Não acredite em algo apenas baseado na experiência dos mestres, pessoas mais velhas e sábios. 
Acredite em algo apenas depois de cuidadosa observação e análise, quando achar que isso concorda com a razão e conduz ao bem e benefício de um e de todos. 
Então aceite esta verdade e viva através dela." 

-------------------------- Siddhārtha Gautama - O Buddha histórico.



押忍
Osu!

07. Karate e o Dô.

Basicamente o que se quer saber é: "O que é o Dô 道 e como segui-lo?"

Essa é uma pergunta bastante pertinente, porque na realidade são raros os instrutores que sabem a que se refere o Dô... Arriscaria dizer que apenas 1 ou 2% destes sabe(m) realmente o que é o Dô.

O Dô 道 é facilmente entendido se entendermos o CONTEXTO onde este foi desenvolvido! 

Quando o Japão saiu do período feudal com o começo da restauração Meiji 明治維新 (Meiji Ishin) o belicismo, os Samurai 侍, as artes da guerra (escolas "-Jutsu" 術) do período anterior já não faziam (e não fazem nos dias de hoje) o menor sentido. O Japão tinha de se afastar do militarismo dos séculos anteriores e ingressar numa nova era de paz. Assim, o Dô 道 como meio de vida substituiu os -Jutsu 術 militares. 

Ou seja, as artes -DÔ  substituiram as artes -JUTSU O Jû-jutsu 柔術 passou a Jûdô 柔道, o Kenjutsu 剣術 passou a Kendô 剣道, o Aikijutsu 合気術 passou a Aikidô 合気道 e assim por diante. A mentalidade guerreira (do passado) deveria evoluir e dar lugar a evolução da sociedade e artes japonesas.

O problema dos instrutores de Karate é que não acompanharam esta evolução histórica e teimam em introduzir conceitos que já não existem dentro da sociedade e artes japonesas, apenas porque acham que com isso a sua escola vai ser mais "marcial" do que as outras. O que estão a fazer, na realidade, é deturpar o Karate em si, deturpar a evolução natural da sociedade japonesa e a transmitir informação errada aos seus alunos.

O Dô 道 nada mais é do que uma transformação e um posicionamento social, com as consequencias inerentes de uma evolução histórica natural.


Dô 道, definitivamente, não é sinónimo de "Samurai" ou qualquer outro disparate que pessoas com pouco conhecimento da história e tradição marcial japonesas tentam impingir.


Mas a questão agora é: "COMO aplicar o "Dô 道" (Caminho, Via) ao Karate praticado nos dias de hoje?"


Primeiro temos de ver como 98 ou 99% dos instrutores vêem este "Caminho".


Nós, seres humanos, temos uma tendência de criar fantasias sobre assuntos que não dominamos ou compreendemos. Criamos ilusões e idéias sobre "como deveria ser" detrminado tópico - isso é natural e não há problema algum quanto a isso.


Então começamos nas artes marciais e - mais cedo ou mais tarde - lemos, assistimos filmes sobre os Samurai ("Serviçal") e o Bushidô 武士道 ("Via do Guerreiro" - o código moral não escrito dos antigos guerreiros). Quem é que não fica fascinado com o assunto? Guerreiros, honra, vida e morte... a expressão máxima das Artes Marciais! 


"Olha! Temos o "Dô 道" na palavra Bushidô 武士道!" Afirmam alguns...


É aqui que o problema começa. Por associação directa, alguns instrutores associam o Dô 道 na palavra Bushidô 武士道 ao Dô 道 em Karate-Dô 空手道. E não só em Karate-Dô, mas em Jûdô, Kendô, etc. Para estes instrutores mal informados, os Samurai são o modelo a seguir. ERRADO! Este Dô a que se refere o Karate-Dô é justamente o afastamento do Bujutsu 武術 "militarismo" do passado, inadequado para o Japão dos dias de hoje.


Assim, o Dô que se deve viver no Karate de hoje no contexto japonês é a formação de elementos úteis à sociedade contemporânea e com espírito de esforço e dedicação forjado nas artes do combate. Isso é o Dô a que as artes marciais se referem! 


Não tem nada a ver com Bushidô ou qualquer outro assuntos relacionado com o mesmo.

Publicado in
22 Novembro 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

06. Compreender o Kata.

Permitam-me levantar algumas considerações a respeito de compreender os Kata.
Os ideogramas apresentados no tópico para a palavra japonesa KATA 型/形 têm realmente as traduções apresentadas, mas o que o artigo não menciona é que estes dois ideogramas são usados indiscriminadamente no Japão para se referirem às "formas/padrões" feitos no Karate. Por isso, divagarmos sobre qual das duas traduções é a mais coerente (ou se ambas são representação da idéia de "forma") talvez não faça muito sentido para posicionarmos o assunto "Kata".
Contudo, achei interessante a frase: "(...)tradição japonesa e deve ser olhada no seu contexto histórico."
A questão é: qual é o "contexto histórico" dos Kata a que se refere o artigo?
Coloquemos as coisas nos seus devidos lugares:
Historicamente, há uma ENORME diferença entre o Karate 唐手 praticado sem fins de difusão popular (por exemplo Higaonna Kanryô) e o Karate 空手 exportado para o Japão. Ah! Sim! Há dois pares de ideograms diferentes para a palavra "Karate"...
唐手 Karate - Estes ideogramas também podem ser lidos "Tôde".
空手 Karate - A versão final para a designação da arte praticada hoje em dia.
Além disso, como é sabido (ou pelo menos deveria ser), o ensino dos Kata que conhecemos hoje não é nem de longe o espelho de como era o ensino original Por quê?! Porque antigamente o mestre ensinava o Kata que mais se adaptasse a determinado tipo de aluno e só ensinava a totalidade (ou quase totalidade) ao aluno que o iria suceder. Assim, um Kata que era ensinado para um aluno não era obrigatoriamente o Kata que seria ensinado para outro. 
O contexto de "aprender TODOS os Kata" de determinado estilo é "coisa recente".
O que nos leva a uma consideração simples: não seria a forma antiga de transmissão do Kata a mais coerente? 
Vejamos... para um estilo como o Gôjû-ryû 剛柔流 com um pouco mais de uma dezena de Kata, aprender todos os Kata parece não ser problema intransponível (mesmo que alguns mestres mais "iluminados" do que outros apresentem tal esforço como sendo "inatingível em uma vida apenas"). 
Por outro lado, um estilo como o Shitô-ryû 糸東流 que engloba os Kata de Itosu 糸洲 e Higaonna 東恩納... Eu não faço idéia da totalidade de Kata que devem ser aprendidos (adicione-se a isso a mesmíssima idéia anterior de que dominar um Kata "é um esforço inatingível em uma vida apenas") ... o que nos leva novamente à mesma questão anterior: não seria a forma antiga de transmissão do Kata a mais coerente? 
Naturalmente a resposta é bastante simples: no contexto ACTUAL, adaptar os Kata aos alunos está fora de questão porque faria diminuir o número de instrutores e isso é "inconveniente" para os propósitos de difusão de um determinado estilo de Arte Marcial.
Quanto ao parágrafo:
"Quando dizemos: "Eu tenho um corpo, eu tenho uma mão ..." uma separação já está em vigor. Este tipo de formulação antes não existiam em japonês, que foi inventado para traduzir idiomas Ocidentais. Esta separação não é sentida na técnica "wasa" ( técnica conectada ao corpo) (3). Qualquer um que adquire esta espécie de técnica tem a experiência de uma unidade total: "Eu sou o corpo, eu sou a mão" - além disso, "Eu sou a técnica, eu sou o que é feito". Neste sentido, o eu desaparece."
Não entendo o que isso tem a ver com "Compreender um Kata".
Compreende-se um Kata através dos seus Bunkai 分解. Onde:
分 BUN - Parte(s)
解 KAI - Compreender, entender, saber.
Para mim, compreender um Kata implica compreender as suas partes, sua aplicação e objetivos de cada movimento. Isso implica estudar a mecânica do seu funcionamento, o resultado pretendido referente a cada técnica e sua aplicação como transmissão de ensinamento original e perpetuação do estilo que se pratica.
Quanto ao "eu" e "não-eu"... cabeça ocupada não tem tempo para divagar. 
Treina-se e estuda-se. nada mais do que isso!
押忍 OSU!

Publicado in
http://karatedopt.blogspot.com/2011/08/compreender-kata.html
21 de Novembro 2011

domingo, 20 de novembro de 2011

05. Importância do Bunkai.

     Permitam-me um breve olhar sobre o "todo" que chamamos Karate.
     Ao entrarmos neste mundo, nesta mini-sociedade que é o mundo das Artes Marciais, a primeira coisa que aprendemos é o Kihon 基本 "os fundamentos". Aprendemos a deslocarmo-nos e as várias formas e aplicações de técnicas. 
     Numa segunda fase, aprendemos os Kata 型 "formas/padrões" - estes são de facto a perpetuação do ensino original dos mestres fundadores (seja qual for o estilo de Karate).
     Numa terceira fase aprendemos os Bunkai 分解 o que significa literalmente "compreensão das partes" e, imediatamente após, aprendemos as Ôyô 応用 "aplicações". 
     Ou seja. Aprendemos o movimento (Kihon), COMO deve ser executado (Bunkai) e a sua APLICAÇÃO (Ôyô) prática em COMBATE (Kumite 組手). 
     Não há a menor dúvida que esta sequência lógica de ensino/aprendizagem conferem outra dimensão à arte praticada porque, sem a menor sombra de dúvidas, o praticante precebe e compreende os objetivos dos movimentos de forma madura e sólida. "Saber" é sempre melhor do que fazer "ao calhas".
     Agora, a minha questão é: será que realmente ensinamos/aprendemos um Bunkai consistente?
     Tenho visto o ensino em incontáveis escolas ocidentais e até hoje NUNCA vi um único ponto vital ser ensinado nestas escolas! 
     Uma coisa é a bela "teoria" outra coisa é a crua "realidade" do ensino marcial... É que para ensinar tal matéria tem-se de saber realmente e isso implica ESTUDAR a arte! Tenho visto - quer nas vertentes desportivas quer nas vertentes mais "marciais" do Karate a instrução de combate ser direccionada "a um nível" genérico (Jôdan 上段, Chûdan 中段 ou Gedan 下段) sem nunca ser especificado qual ponto vital específico a atingir.
     Uma coisa é a mística do Karate preciso e efetivo, outra coisa é o ensino/aprendizagem de qualidade propriamente dito...

Publicado in 
20 Nov 2011

04. Pontos Vitais.


Ao meu ver, a sequência lógica para o ensino/aprendizado do Karate é a seguinte:
1. 基本  KIHON - Literalmente "Fundamentos" é a porta de entrada. 
2. 型・形 KATA - Literalmente "Formas" é a transmissão do ensinamento dos mestres originais.
3. 分解  BUNKAI - Literalmente "Entender as partes" é a compreensão do ensino.
4. 組手  KUMITE - Literalmente "Confronto" é a aplicação do conhecimento.

Então, onde entram os Atemi 当て身 "ataques aos pontos vitais" e os Kyûsho 急所 "pontos vitais" propriamente ditos? Este é um assunto bastante interessante, principalmente nos dias atuais. 

É interessante porque - em certa medida - é um assunto que todos falam, mas poucos realmente tem conhecimentos efetivos a que o assunto se refere.
Assim a matéria é falada, comentada muito superficialmente por "mestres" diversos, sem que nenhum ponto vital seja abordado em profundidade.

E qual a razão para esta negligência no ensino/aprendizagem?

A razão é que este assunto é muito mais complexo do que apresentar um diagrama com desenhos de localização dos pontos vitais e, em certa medida, as informações apresentadas nestes mesmos diagramas deixam muito a desejar no que diz respeito aos detalhes a respeito de cada ponto nelas indicados.

Apesar de eu não ter uma "vasta" experiência em brigas de rua, naturalmente enfrentei alguns casos onde o risco de vida era iminente. Entre os casos sobre os quais eu tenho vivência efetiva, pois as situações se passaram comigo, vou comentar três casos que me causaram grande surpresa ao verificar que o conhecimento que eu tinha "aprendido" dentro do Dôjô a nível de pontos vitais não correspondia àquilo que eu enfrentava na rua.

Num primeiro caso, após ter passado anos e anos a treinar técnicas para atingir pontos específicos, fui abordado na rua por um elemento... o confronto foi inevitável. Num determinado ponto, desferi o meu ataque a um ponto específico - já pensando no resultado que eu esperava. 
Para a minha surpresa e horror, o ataque ao ponto vital, com força mais do que suficiente, não produziu qualquer efeito no adversário em questão. Foram necessários quatro ataques no mesmo ponto para que o elemento fosse neutralizado (o que me deu uma margem de sucesso de 25% para um ataque ao referido ponto - muitíssimo abaixo do que eu esperava para um combate real)
A questão que se coloca é: : a técnica ao ponto vital não funcionou ou funcionou mal?!
Vejamos a situação de uma outra forma. Quando estamos em combate real, a adrenalina sobe em flecha... não só a nossa, mas a do adversário também! Aquilo que uma pessoa em condições normais poderia achar extremamente doloroso, sob o efeito da adrenalinha pode muito bem não sentir coisa alguma. Devemos estar preparados para esta situação... coisa que naquela época eu não estava. Mesmo atingindo o ponto certo, um único ataque não foi suficiente para derrubar o adversário. Descobrir isso no meio de um combate é a pior coisa que pode acontecer, pois abala os alicerces daquilo que julgamos dominar.

Num outro confronto também inevitável, utilizei uma técnica que para mim era potencialmente "inofensiva", quero dizer, não tinha objetivo em derrubar o adversário, tanto que o combate acabou com uma técnica apenas... mas vim a saber que o adversário teve o braço partido em três partes. Isso também foi uma surpresa enorme, pois quando fiz a técnica tinha por objetivo apenas "afastar" o adversário e nada mais, tanto que a técnica foi feita com aproximadamente 50% da força que eu podia utilizar. Neste caso, a técnica teve um aproveitamento de 300%...
A questão que se coloca é: a técnica funcionou bem demais?!
Novamente devemos analisar a situação no contexto de combate de rua onde a nossa vida está em risco e que todas as alternativas são válidas para sobreviver. 
Além disso, quando fiz a técnica não visei qualquer ponto vital. Apenas queria afastar o adversário.
Existem vários fatores que contribuem ou atrapalham o desempenho de um karateka em combate real. As falsas teorias sobre pontos vitais serem decisivos deveriam ser apresentadas de uma forma mais coerente. Há situações de hesitação, medo, insegurança... também há momentos em que o adversário simplesmente tem uma pura perda de controle sobre si mesmo - quer por problemas médicos, quer por efeito de drogas, alcool etc.

Num terceiro caso, estava voltando da praia com os meus irmãos menores quando fomos abordados por dois elementos, um deles com um bastão com pregos nas pontas. O combate era inevitável. Uns 5 segundos após ao início do combate, eu estava a aplicar um estrangulamento com o elemento que estava armado caído ao solo. Como no Dôjô eu já havia praticado milhares de vezes os estrangulamentos, sabia  - com 100% de certeza - que funcionavam (pois eu já tinha passado tanto por defensor como agressor na prática das técnicas - sabia "como" fazer e os seus efeitos a nível de tempo e resultados). 
Mas, na rua é diferente... não é a mesma coisa. Enquanto que no dôjô o Dôgi 道着 não rasga, na rua, a roupa comum rasga, cedendo à pressão! Definitivamente, a técnica não pode ser feita. Simples como isso! 
É uma situação completamente nova. 
Aquilo que eu julgava ser 100% a prova de falhas, falhou redondamente!
A questão que se coloca é: A técnica estava errada?!
De forma alguma! O que ensinado/aprendido funciona realmente a 100%... as condições do combate "não-linear" é que são imprevisíveis! 
Certezas dentro de um Dôjô, todos nós as temos, mas a realidade do combate de rua (não para marcar pontos) pode se revelar assustadoramente perigosa.

O que nos leva à questão dos pontos vitais e o seu ensino nas Artes Marciais.
Todo o instrutor deveria ser capaz de separar a fantasia da realidade e advertir os alunos que um ataque a um ponto vital tem mais probabilidade de atingir o objetivo esperado, mas que também estivessem prontos para a eventualidade de o adversário estar "anestesiado" por adrenalina ou sob o efeito de alucinógenos ou alcool... o que vai determinar sua maior ou menor resistência aos atques que efetuamos.. 
Infelizmente - não é bem isso que vemos nas escolas. Os pontos vitas passam a ser mitos e alguns "mestres" citam um ou dois para justificar o seu status quo.


Todo instrutor que se aventura pelo ensino dos pontos vitais geralmente cai num erro extremamente básico: a falta de vivência real na aplicação de técnicas aos pontos ensinados. 
E é bom que assim o seja, caso contrário andariam todos à porrrada constantemente e isso afasta-se das fronteiras do Dô 道(Caminho, Via).

Sou a favor do ensino de pontos vitais para todos os Yûdansha (faixas-pretas) e acredito que um shodan deveria saber 3 pontos vitais (1 jôdan + 1 chûdan + 1 gedan); um 2º Dan deveria saber 6 (2+2+2), um 3º Dan deveria saber 9 (3+3+3) e assim por diante. 

Mesmo que não representem 100% de certeza de Ikken Issatsu 一拳一殺 ("Um ataque, uma morte") aumenta a precisão e efetividade do futuro instrutor.


 KYŪSHO-ZU. Tabela de Pontos Vitais Básicos.

01. TENDŌ - Fontanela Anterior.
02. UTO or MIKEN - Entre as sobrancelhas.
03. KASUMI or KOMEKAMI - Têmpora(s).
04. DOKKO - Cavidade Mastoideana.
05. JINCHŪ - Base do Nariz.
06. SUIGETSU or MIZUOCHI - Plexo Solar.
07. GETSUEI - Hipocôndrio esquerdo.
08. KINTEKI or TSURIGANE - Testículos.
09. SHITSU - Joelho(s).
10. MYŌJŌ - Hipogastro.
11. DENKŌ - Hipocôndrio direito.
12. KACHIKAKE - Queixo.



押忍!Osu!

03. Requisitos do ensino.


Não há a menor sombra de dúvida que os modelos de transmissão de ensinamento variaram muito em poucos anos. Conceitos que até então eram "leis fundamentais inquestionáveis", como a terra ser o centro do Universo, foram superados por outros conceitos mais evoluidos. Acredite ou não, antigamente matava-se quem ía contra o que estava estabelecido. Podemos dizer que evoluimos... Ou não?

No mundo das artes marciais, em particular no Karate-Dō [空手道], parece que esta evolução ainda não se fez sentir em todas as escolas ou mestres mais antigos e o modelo de "avanço didático" ainda está a ser combatido por aqueles que se recusam a ver o óbvio na frente dos seus olhos. Por exemplo, ainda há instrutores que escrevem "Oss", "Ôs" quando já é fato comprovado que a transcrição fonética desta expressão corretamente a partir dos ideogramas 押忍 ou silabários おす japoneses é OSU.


... Além disso, formas incorretas de transmissão mascaradas sob falsas filosofias orientais não contribuem em absolutamente NADA para a evolução no sentido correto do ensino do Karate-Dō [空手道] ensinado nos dias de hoje. Por exemplo, ainda existem instrutores que, na hora do Mokusō [黙想], sentam-se de olhos fechados diante de uma turma de alunos sem NUNCA verificar se os alunos estão ou não a fazer o Mokusō [黙想] corretamente. Apresentam-se como "conhecedores do Zen", dotados de uma "perfeita atitude marcial". Sentam-se em Seiza [正座] sem ver a turma diante do próprio nariz! Naquele momento não estão a ensinar nada, não estão a ser instrutores... A conhecida expressão "Fechar os olhos e não pensar em nada" talvez tenha a sua razão de existir como escudo contra a necessidade de "estudar" o Karate-Dō [空手道] e serem revistos muitos conceitos fundamentais. Algo como "fecho os meus olhos para o fato de que ainda tenho muito o que aprender e não quero nem pensar em sair do meu comodismo medíocre".

A questão que se coloca neste preciso momento é:: por quanto tempo a terra ainda vai ser o centro do Universo para um seguimento considerável de instrutores?

Torna-se bastante claro que só podemos evoluir a partir do momento que temos a consciência de que podemos questionar, perguntar, procurar respostas, afastando-nos do comodismo e de desculpas patéticas como "Meu mestre disse que era assim...". O questionamento traz o estudo e a pesquisa. O estudo e a pesquisa trazem o conhecimento. 


Ser "macaquinhos de imitação" não é o que se espera de um instrutor (seja o DAN [段] que este possa ter), pois o instrutor é elemento que deve "instruir" outros seres humanos - com a responsabilidade que o cargo acarreta.

Caros amigos... A terra já não é o centro do Universo! 


O estudo do Karate-Dō [空手道] (ou das vias marciais num sentido geral) não é um privilégio, mas uma opção.

OSU [押忍]!